SOCORRAM-ME! SUBI NO ÔNIBUS EM MARROCOS!

Releia a frase acima, agora de trás pra frente. Isso é um palíndromo, e não é qualquer palíndromo. Com 32 letras, já foi considerado o maior da língua portuguesa. E ele é especial porque, além de fazer sentido nos dois sentidos (!), tem um palíndromo menor dentro dele (“subi no ônibus”).

Palíndromos são palavras ou frases que podem ser lidas igualmente da esquerda pra direita e da direita pra esquerda. Ou, do dicionário (no caso, Oxford Languages):

palíndromo
adjetivo substantivo masculino
1. diz-se de ou frase ou palavra que se pode ler, indiferentemente, da esquerda para a direita ou vice-versa.
2. VERSIFICAÇÃO m.q. ANACÍCLICO.
Origem
⊙ ETIM gr. palíndromos,os,on ‘que corre em sentido inverso, que volta sobre seus passos’

Oxford Languages

Pois o mineiro Ricardo Cambraia, conhecido no Twitter (onde tem mais de 11 mil seguidores) como O Palindromista, lançou pela Ava Editora um livro só com esses belos exemplos de coisas que podemos fazer com o nosso idioma. Aliás, é no Twitter (e mais recentemente também no Instagram) que Cambraia faz cambalhotas linguísticas para comentar assuntos políticos do dia. Todo dia.

Com vocês, O Palindromista — o livro (clique na imagem para comprar).

Cambraia promete autografar e palindromizar cada um dos 300 primeiros livros vendidos - 1 por R$ 29,92, 2 por R$ 49,94 (sim, os números também podem ser palíndromos - e os valores da pré-venda foram alterados por 'razões palindromísticas', diz o site da editora!)

Nas palavras do colega Xico Sá sobre Cambraia e sobre a obra:

Ricardo Cambraia é um craque da palavra e da linguagem. Indo e voltando, o Palindromista nos entrega todos os gêneros literários na velocidade da luz. Em uma linha, é capaz de riscar uma crônica, um conto, um haicai ou uma ideia para um romance. Tem amor, humor, boemia, lirismo, os cutucões essenciais na política. Vou e volto em uma viagem para deixar em dia os cinco sentidos.

Xico Sá, jornalista

Calma, tem mais

Em tempo: se você gosta de palíndromos como eu ou como Cambraia, talvez goste de saber que, embora a palavra “palíndromo” não seja… um palíndromo, o termo que dá nome ao medo de palíndromos, por sua vez, é: aibofobia! (Estou curioso pra conhecer alguém que tenha isso!)

Acho que você também vai gostar de ler esse palíndromo com 224 palavras, em inglês. Em português, há outros tão longos quanto o do ônibus marroquino, mas o jornalista Claudio Tognolli escreveu, depois de aposta com Sérgio de Souza, um palíndromo com 12 estrofes. A verdade, como me contou Cambraia, é que não há consenso sobre qual é o nosso palíndromo mais longo.

Amo Omã. Se Roma me tem amores, amo Omã tem 29 letras. Achei um com 58: Luza Rocelina, a namorada do Manuel, leu na moda da romana: “anil é cor azul”). Mais do que a extensão, o que importa mesmo é a criatividade dos palíndromos—e nesse quesito, Cambraia mostra habilidade. Ele me enviou o seguinte texto, um dos maiores que já escreveu, com 160 caracteres:

Dependência e Morte
“Arretada terra!
Servil só dai dó!”
E vê a mirada, o verbo,
Saga da lei.
Facas rodai.
“Fase de ir à luta!”
Mau, só tu, Pedro,
Morde puto sua matula,
Ri e desafiador saca fiel adaga Sob revoada rima.
E vê o dia dos livres,
Arretada terra.

Pega a pipoca

Se você ainda não assistiu ao filme Tenet, faça isso. Tem direção e roteiro do britânico Christopher Nolan (o mesmo de A Origem, de 2010, e de Interestelar, de 2014), com John David Washington, Kenneth Branagh e Robert Pattinson no elenco.

Embora a crítica não tenha sido muito favorável, principalmente por ter sido forçado às salas de cinema em meio à pandemia, eu achei um bom filme —o palíndromo não aparece só no título! Na trama não há um Palindromista, mas um Protagonista (Washington, de Infiltrado na Klan, 2018). Prefiro não me alongar e só fazer a humilde recomendação!

O filme está disponível no Amazon Prime Video. Ao menos você pode assistir na segurança e conforto do lar! E o livro do Cambraia está com frete grátis, aliás.

ERRATA: Depois de publicar o texto, Cambraia me contou que o palíndromo do ônibus em Marrocos não é mais o mais longo da nossa língua. Por isso, alterei e incluí o texto dele, que é 5 vezes maior. Correção feita e registrada!