Ao longo dos últimos quase dez anos, tenho acompanhado a luta —quase sempre infrutífera— de pessoas que têm hoje entre 30 e 40 anos e que, nos anos 1980, foram adotadas ainda bebês de forma ilegal por pais estrangeiros. Já escrevi a respeito aqui no meu blog e até publiquei uma dessas duras histórias no Estadão, na época em que trabalhava no jornal. Estima-se que milhares de crianças brasileiras tenham sido tiradas dos pais biológicos e levadas para adoção na Europa, principalmente. Em Israel, falam em até 3 mil crianças adotadas.

A história dessas buscas pode estar começando a mudar. A Autoridade Central Administrativa Federal (ACAF), órgão vinculado ao Ministério da Justiça, finalmente criou um procedimento para permitir a essas pessoas o acesso a informações sobre sua origem biológica.

Em 2019, com a aprovação da Resolução nº 19 pelo Conselho das Autoridades Centrais Brasileiras (CACB), estabeleceu-se fluxo para recebimento e atendimento dos pedidos, adotado pelas Autoridades Centrais em matéria de adoção internacional de todas as unidades da federação brasileira.

Site do Ministério da Justiça

O processo pode ser feito tanto em português, se o adotado falar o idioma, como em inglês. Outros idiomas não estão disponíveis. Para dar entrada, é necessário preencher o formulário disponível no site do Ministério da Justiça e enviá-lo por email para acaf@mj.gov.br. É necessário digitalizar e enviar toda a documentação disponível, como documento de identidade recente e outros que possam colaborar com as buscas. O processamento é feito de forma digital e é gratuito.

Busca de DNA

Conversando com a pessoa em quem mais confio sobre o assunto, e que provavelmente fez mais pelos adotados do que qualquer outro, ela me recomendou que as pessoas façam também um exame de DNA para incluí-lo em bancos de dados. “Recomendo testar o DNA de ancestralidade“, ela me disse. “Priorizo o MyHeritage, porém seja qual for o laboratório escolhido, é importante passar o resultado para os outros: Family Tree DNA, 23&me, Ancestry, e GEDMatch“.

Esses sites têm serviços —alguns deles gratuitos— de busca de correspondências de DNA. Enquanto a burocracia faz a sua parte, vasculhando arquivos e tentando ligar os pontos que muitas vezes são desfeitos ou frágeis nos processos ilegais de adoção, a ciência pode colaborar —muitas vezes, de forma ainda mais rápida.

E há esforços para ajudar financeiramente na colheita do DNA famílias que ainda estão em busca, mesmo tanto tempo depois, por notícias de filhos desaparecidos ou dados como mortos na década de 1980. Em geral, são famílias pobres, vivendo em lugares periféricos, e o exame de DNA não é exatamente uma prioridade para elas, financeiramente.

Por isso, há esperanças de que o “match” ocorra, mais cedo ou mais tarde.

Desejo a todas as crianças dos anos 1980 adotadas por pais estrangeiros e que estão atrás de conhecer suas origens muita sorte com a busca. Como sempre, coloco-me à disposição para ajudar.