Hoje o Brasil superou a marca intolerável de 40 mil mortos por covid-19, esse conjunto de letras e números que tem nos mantido em casa, que tem proibido abraços e encontros, que adicionou máscaras faciais à indumentária obrigatória. Palavras como “quarentena”, “isolamento”, “live”, “álcool em gel”, “virtual” passaram a fazer parte do nosso vocabulário diário. Os dias não têm mais nomes, passam na velocidade da marmota e só diferenciamos o dia da noite porque muda a luz.

São quarenta mil mortos. Quase quarenta e um mil, a rigor. E já nem sabemos mais o que esses números significam. Os dados são os oficiais do Ministério da Saúde.

Acho necessário colocar os números em perspectiva. Em 3 meses, tempo no qual estamos mergulhados na pandemia, a covid-19 matou no Brasil mais do que o trânsito, o assassino serial dos mais cruéis do país, vitimou ao longo de todo o ano passado, 40.721 pessoas segundo o DPVAT. A doença nova também já matou no país mais do que outro fantasma nosso, o dos homicídios dolosos, que ceifaram 39.776 vidas em todo o ano de 2019, segundo dados do Ministério da Justiça.

Já se vai quase um mês desde que ultrapassamos outro recorde: mil mortes em um só dia. Lembre de tragédias dos últimos anos: Brumadinho (2019), Boate Kiss (2013), queda dos voos Air France 447 (2009) e TAM 3054 (2007). Somadas, as vítimas desses acontecimentos que pararam o país, deixaram um nó na garganta de muita gente, fizeram chorar tantos de nós, somadas, foram 939 pessoas. É como se houvesse, todo dia, 2 aviões caindo, uma danceteria cheia incendiada e uma avalanche de lama sobre o Brasil. Todo dia.

Da primeira morte por covid-19 registrada no Brasil, em 17 de março, até hoje (11 de junho), transcorreram-se 88 dias. Em média, nesse período, morreram por dia 465 pessoas, mais do que o equivalente a quatro massacres do Carandiru (1992). As contas do tuíte acima estão corretas, mas faltou mencionar que a soma das vítimas de todas as seis tragédias listadas ali é ainda menor do que o número de mortos por covid-19 naquele dia: 1.056 contra 1.179.

Uma cruz para 410

Tem muita coisa ocorrendo enquanto parece que nada acontece. Para quem escreve –ao menos para mim– tem sido por vezes, muitas vezes, avassalador ter de lidar com essa avalanche de acontecimentos monotemáticos. Mas hoje houve uma coisa, pequena nos efeitos e gigante na simbologia. A ONG Rio de Paz fez uma homenagem nas areias da praia mais brasileira, Copacabana, na capital fluminense: cem cruzes, algumas com a bandeira do país, em cem covas.

Ativistas usam roupa e equipamentos de proteção ao colocar as cruzes nas ‘covas’ na areia de Copacabana (foto: Pilar Olivares/Reuters)

Era uma singela homenagem aos milhares de mortos. Suspeito que não haveria areia suficiente para os números abominantes que nos acompanham no noticiário (numa conta macabra, para enfileirar as covas de 10 em 10, seria necessário ter o equivalente à extensão de quase duas praias de Copacabana inteiras).

Foram 100 covas e cruzes, então, para simbolizar os tantos mortos. Uma cruz para cada 410 pessoas. E essa história poderia ficar por aí, como um triste recordatório, na praia que deveria estar deserta, de que vamos mal, de que devemos seguir nos protegendo, de que os números não devem ser apenas isso. E de que, afinal, estamos em luto, porque a dor dessas famílias é a dor de 210 milhões de brasileiros.

Nos países por onde o novo coronavírus passou, quase todos os que há, a dor das 413.372 famílias que perderam algum parente é a dor de todos. Esse é o número de mortos por covid-19 no mundo até hoje, segundo a Organização Mundial da Saúde. Quase meio milhão de pessoas. E 9,9% delas estão aqui no Brasil. Os Estados Unidos, de quem já somos 2º, têm 27,1%.

É verdade que a homenagem da organização Rio de Paz era também manifestação de indignação. Sem surpresa: os brasileiros (ao menos uma parcela bem grande e que cresce com os dados do coronavírus) estamos exaustos. Estamos assustados e incrédulos com a inação, a inaptidão, os desmandos, as declarações desdenhosas em série, a falta de liderança e de respeito e o corriqueiro flerte com o autoritarismo num momento que não é fácil para absolutamente ninguém, menos fácil ainda para os mais vulneráveis.

Cruzes ao chão

Mas chegamos a um ponto tão baixo, como sociedade, que somos capazes de confundir uma homenagem aos mortos –tivessem sido eles de esquerda ou de direita, pouquíssimo deveria importar– com a política espurca e com a crescente (como se não devesse haver algum limite) polarização a que o país assiste. Devíamos estar unidos ao redor das famílias enlutadas e dos nossos “de risco”, dispostos e agarrados aos esforços para conter a disseminação, mas celebramos, alguns até com espumante, a precoce e irresponsável reabertura enquanto o traço ascendente de casos e de mortos não faz ainda a tal curva.

Nas últimas 24 horas, 1.239 novas mortes (fonte: covid.saude.gov.br)

E tudo é símbolo. No Rio, de volta a Copacabana, um homem, de camiseta azul-escuro, em silêncio mas motivado, pôs-se a passear sem máscara (que só mesmo no Brasil para denotar ideologia) entre as cruzes plantadas na areia e a derrubá-las, uma a uma, sem nada dizer e sem parar. Confesso: mesmo com todos os esforços não consigo entender a frieza de uma pessoa que caminha entre covas, ainda que simbólicas, e destrói uma homenagem que ela poderia estar fazendo também…

Pior: enquanto a empreitada destrutiva ia ocorrendo, a claque efusiva aplaudia retardada e gritava impropérios indignos ao momento que o mundo vive. Uma parva que não se vê mas que se ouve em um dos vídeos que circularam nas redes sociais repete apenas, sem outro qualquer recado: “Brasil, Brasil, Brasil..”, como se a comemorar o gol que não notou ter sido contra. E continua, néscia, para só então aparecer, de roupa esportiva e, claro, também sem máscara:

Manda essa esquerdalha embora… pra China!

Quem é a “esquerdalha”, cidadã? São os ativistas da Rio de Paz, que pedem uma resposta à altura do desafio em vez de um “E daí?” ou são os quarenta mil mortos, ou talvez as famílias deles, quiçá os que estão em isolamento ou os que usam máscara e álcool em gel? Quem é a “esquerdalha” que merece seus deletérios comentários? É quem homenageia os mortos, pedindo que parem de vir? O que é que havia ali de “esquerdalha”, sua brasileira mesquinha? É ter a capacidade crítica de olhar com repugnância em vez de lamber com olhos cegos e inebriados de paixão burra o ocupante da vez da cadeira presidencial?

Como tudo no Brasil por esses tempos parece ter ação e ligeira reação, um outro homem, com uma camiseta amarela ao redor do pescoço e máscara cobrindo o rosto, percorria o caminho do anterior e voltava a erguer as cruzes derrubadas, para desespero da entusiasmada pandilha. Pedia “respeito aos outros”, sob protestos dos caminhantes da orla ignorantes da situação. Entre uma fincada e outra na areia fofa, o homem, um taxista de 55 anos, deixou sair:

Meu filho morreu com essa merda aí. Vinte e cinco anos!

Marcio Antonio do Nascimento, pai de Hugo Dutra do Nascimento Silva, que morreu por covid-19 em 18 de abril e deixou um filho de 4 anos

Mas nem mesmo essa dura confissão de um pai enlutado, levantando cruzes como se do filho fossem, fez sossegar os ânimos buliçosos dos biltres. É tão triste, Brasil! É “de embrulhar o estômago”, como desabafou o autor do tuíte acima. É lamentável. É um sinal espantoso desses tempos em que, se não nos matar o vírus, nos matará o vizinho enrolado em bandeira verde-amarela.

Já não nos basta desejar saúde. É preciso que gritemos “Paz!”

Foto de capa: Homem derruba cruzes em homenagem a vítimas da covid-19 no Rio de Janeiro (Carl de Souza/AFP)

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