Quando a internet era ainda incipiente no Brasil, as redes sociais eram coisa do futuro (mas o Orkut já existia!) e o YouTube tinha apenas um ano de vida, um vídeo viralizou no Brasil. O nome dele era “Tapa na Pantera”. Era 2006 mas parece que faz cem anos. Nos mais de 3 minutos de uma esquete, a atriz e diretora Maria Alice Vergueiro, que morreu hoje aos 85 anos em São Paulo, fazia o papel de uma senhora que, sentada no cantinho de um sofá e com um cachimbo na mão, falava frases que ficaram famosas depois:

“Eu fumo no cachimbo porque o que faz mal é o papelzinho”

Maria Alice Vergueiro, em ‘Tapa na Pantera’

“Tapa na Pantera” foi provavelmente o primeiro vídeo brasileiro a viralizar. Todo mundo que tinha uma conexão discada na época assistiu, provavelmente em um computador de mesa, ao curta, colocado no YouTube sem a concordância da equipe, e molhou as calças de tanto rir com Maria Alice no papel da senhora de óculos escuros que, fazia décadas, fumava maconha:

“Dizem que maconha vicia. Eu fumo há trinta anos, todos os dias, todos os dias, não pulo nenhum! E não tô viciada…”

Maria Alice Vergueiro, em ‘Tapa na Pantera’
‘Tapa na Pantera’ foi provavelmente o primeiro vídeo viral do Brasil

Em 2015, quase uma década inteira após “Tapa” ser lançado na internet, a atriz comentou, em entrevista ao UOL, o sucesso do vídeo: “Ninguém entre os jovens me conhecia como atriz, mas ainda ontem dois me abordaram na rua e pediram para tirar foto comigo. Eu adoro. Os jovens são muitos simpáticos. Eles vêm atrás de mim, mas não como iriam atrás de uma atriz de televisão. Eles vêm com o maior respeito, dizem que sou uma atriz do YouTube“.

Na época, ela trabalhava na montagem de “Why The Horse?”, a última peça em que atuou, em 2016. Na obra, baseada nos textos de Alejandro Jodorowsky, Fernando Arrabal e Samuel Beckett, a artista encenava o próprio velório e retratava a luta contra o mal de Parkinson, que a acompanhava por mais de 10 anos.

Hoje (3) Maria Alice se despediu da vida. Ela tinha sido internada no Hospital das Clínicas, em São Paulo, no dia 26 de maio com insuficiência respiratória e pneumonia e aguardava resultados para confirmar uma suspeita de covid-19, que foram depois descartadas.

Com cerca de 60 anos de carreira, Maria Alice era considerada uma das grandes damas do teatro moderno e da contracultura brasileira, com obras consideradas essenciais para a dramaturgia patropi. Em 2018, o documentário Górgona, de Fábio Furtado e Pedro Jezler, abordava a vida e a carreira de Maria Alice.

O documentário ‘Górgona’ aborda a vida e a carreira da atriz

Segundo o site Observatório do Teatro, Maria Alice foi co-fundadora do revolucionário Teatro do Ornitorrinco, ao lado de Cacá Rosset e de Luiz Roberto Galízia. Ela trabalhou ainda em obras de grupos como Teatro de Arena, sob a direção de Augusto Boal, e o Oficina, comandado por José Celso Martinez Corrêa.

Nos palcos, deu vida a personagens icônicos como Mãe Coragem (2002) de Bertolt Brecht e a prostituta Jenny em “A Ópera dos Três Vinténs” (1964), também do dramaturgo alemão. Compôs o elenco das montagens históricas de “O Rei da Vela” (1967) e “Galileu Galilei” (1975), com o Oficina, “Ópera do Malandro” (1978), de Chico Buarque de Hollanda, e “O Avarento” (1998) com o Ornitorrinco.

Foto de capa: Divulgação/Observatório do Teatro