Dia de turbulência em Brasília. O “superministro” da Justiça e da Segurança Pública desembarcou do governo Bolsonaro e muito está sendo dito a respeito. Escrevo este texto antes do prometido pronunciamento do presidente da República para, nas palavras dele nas redes sociais, “restabelecer a verdade”. Há pouco que ele possa dizer para reverter verdadeiramente o estrago que o agora ex-ministro fez ao anunciar sua saída do governo.

Meu medo é esse: o de transformarmos Moro em herói nessa história toda. Nada há de herói em Sergio Moro. Nada. Embora tenha sido o homem-forte, o símbolo vivo da Lava Jato, muito por uma imagem construída na imprensa e copiada pelo bolsonarismo ao acolher o ex-juiz, tudo o que aconteceu só foi permitido porque os governos petistas não interferiram na Justiça (como Bolsonaro quer e vai fazer se for mantido no cargo).

Moro sai agora, ano e meio depois de entrar, como cúmplice de manobras que nos bastidores já vinham acontecendo há muito tempo. Escolheu calar-se por muito tempo, tempo demais para quem seria um bastião da justiça e do combate à corrupção. Calou-se em cada desmando de Bolsonaro, como ele mesmo disse, “desde o segundo semestre do ano passado”.

Não temos heróis. Temos uma realidade que é muito cruel mas da qual não podemos fugir: a corrupção faz parte da política brasileira há mais tempo do que nossa memória consegue alcançar. E não foi Moro nem será Bolsonaro o sujeito capaz de erradicá-la das nossas instituições.

Foto de capa: Jair Bolsonaro e o agora ex-ministro Sergio Moro (Jorge William/Agência O Globo)