Muita gente tem me perguntado, porque trabalho em aviação (para quem não sabe sou editor de português na área de Experiência do Usuário da LATAM Airlines), quais os riscos de viajar de avião no Brasil e entre países em meio ao surto do novo coronavírus, causador da doença chamada covid-19. Hoje o número de casos confirmados no Brasil chegou a 30, segundo dados da Secretaria da Saúde do Rio, onde estão os 5 novos casos. Vale aqui uma ressalva: o que eu escrevo aqui representa apenas o meu ponto de vista pessoal, a partir de pesquisas relacionadas ao assunto, e não tem nada de institucional ou relacionado à empresa em que trabalho.

–> Acompanhe diariamente os relatórios situacionais da OMS

Bom, se há uma sugestão inicial que eu posso dar a todos, viajando ou não de avião, ela é: evitem o pânico e lavem as mãos. Até o momento, enquanto vamos entrando no 3º mês desde o início do surto, em dezembro, muitos países — principalmente a China, de onde o vírus começou a se espalhar, e a Itália, que já tem registrado um número ainda maior do que a China de novos casos diários — estão tomando medidas de todo tipo para conter a propagação da doença. Basta acompanhar as notícias para saber quais países estão entrando e saindo das listas de casos confirmados e descartados, mortes etc. Mas isso não significa que ficar em casa seja mais seguro: o vírus já está no Brasil e já estão ocorrendo transmissões locais. Mesmo assim, uma coisa é certa: o pânico não colabora com absolutamente nada.

–> Guia de prevenção sobre o coronavírus

A Itália, por exemplo, já restringiu a circulação de pessoas, primeiro na Lombardia, no norte, depois em regiões onde vive um quarto de toda a população do país. Israel, hoje, anunciou que todos os passageiros que chegarem em Tel Aviv vindo do exterior, estrangeiros ou nacionais, deverão ficar 14 dias em quarentena. Há vários outros exemplos. Além da China (3.123) e da Itália (132), países como Irã (194) e Coreia do Sul (51), só devem ser visitados em situação de extrema necessidade. Os números entre parênteses indicam quantas pessoas já morreram em cada um dos países (dados de ontem, dia 9).

Países com casos registrados até ontem (9), segundo a OMS

O que fazer e o que não fazer

Falando especificamente sobre viagens de avião, o melhor conselho que eu posso dar é o mesmo: mantenha a calma, evite o pânico. Assim como as autoridades locais dos países afetados pela crise do coronavírus (que já somam 105, com novos casos registrados de ontem para hoje no nosso vizinho Paraguai, em Bangladesh e na Albânia, vizinha adriática da Itália), as companhias aéreas também estão se movimentando para proteger passageiros. Até a última sexta-feira (6), mais de 70 países ou territórios haviam imposto restrições de voos a partir da China (mas isso só é útil se você estiver planejando uma viagem para lá ou se estiver na China, o que eu acho que não é mais o caso a essa altura.)

O caso da LATAM, que suspendeu temporariamente o trecho GRU-MXP (Milão, na Itália) é apenas uma entre tantas medidas que estão sendo tomadas no setor para evitar viagens a locais em que a doença está se espalhando rapidamente e para proporcionar viagens mais seguras. Se você acompanhar o meu Twitter (últimas postagens aí à direita) vai poder ver algumas das medidas que estão sendo tomadas.

Há algumas coisas importantes a se considerar nessa crise. Vamos a elas.

Não use máscaras a menos que você tenha o coronavírus

A primeira é que o uso de máscaras só é verdadeiramente efetivo para quem está contaminado com o vírus, para frear a sua transmissão. Se você não tem o coronavírus, não compre nem use máscaras. Há, na minha opinião, três razões principais para isso:

  1. A máscara de nada serve se você continua levando as mãos à boca, ao nariz e aos olhos (não protegidos) depois de tocar objetos que podem estar contaminados (lembre-se do meu conselho: lave as mãos);
  2. Ao comprar desnecessariamente máscaras, você vai tirar de quem realmente precisa – quem tem a doença e os profissionais de saúde que tratam de quem tem a doença – a chance de encontrá-las: a OMS (Organização Mundial da Saúde) já fala há alguns dias sobre escassez de equipamentos de proteção individual, como as máscaras, para médicos, enfermeiros e outros profissionais que lidam com doentes de covid-19;
  3. A terceira razão é psicológica mas não precisa ser muito sábio para entender: imagine entrar em um avião e notar que todos os passageiros estão usando máscaras — você iria adiante ou desistiria do voo? É isso: o uso de máscaras por quem não precisa só faz o contrário do que você deve fazer nessa situação: gera sensação de pânico.

“Estamos preocupados com o fato de que a habilidade dos países de responderem [à epidemia] está sendo comprometida com a escassez severa e crescente de equipamentos de proteção individual, causada pela demanda em alta, pela acumulação e pelo mau uso”.

Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, em entrevista coletiva

Então se você vai viajar de avião entre países e está pensando em fazê-lo usando máscaras, repense a sua estratégia, que só vai assustar as pessoas, provocar escassez desse equipamento e não vai te proteger. Se não ficou claro ainda, eu reforço: lave as mãos. Sobre isso, a ICAO (Organização Internacional da Aviação Civil), órgão ligado à ONU assim como a OMS, tem uma recomendação básica para viagens de avião:

O público deve ter boas práticas de higiene, como cobrir(*) a boca e o nariz ao tossir ou espirrar, lavar as mãos completa e regularmente com sabão e água ou com álcool.

ICAO/ Aviation and COVID-19/ Q&A for the general public
(*) Procure cobrir a boca e o nariz com o antebraço, não usando as mãos -- é uma forma simples e excelente de não deixar o vírus de presente para alguém no próximo local que você tocar. 

Uma dica para o caso de você ser teimoso e querer muito parecer doente: faça a sua própria máscara caseira! É simples e rápido, bastando para isso apenas uma folha (ou duas, se quiser!) de papel toalha, mais grossa do que o papel higiênico, dois elásticos e um grampeador. Faça assim: dobre a folha em “vaivém”. Ao terminar, posicione um elástico em uma das pontas, dobre e grampeie. Faça o mesmo na outra ponta. Pronto, ao abrir você terá uma máscara pronta. Assim:

Siga as orientações da tripulação e do pessoal de solo

Viu? Lavar as mãos! A ICAO também tem regras claras que determinam que as aeronaves tenham kits com itens de proteção individual. No entanto, esses equipamentos são para uso dos tripulantes no gerenciamento de casos suspeitos de doenças transmissíveis. Os tripulantes das companhias (bem como o pessoal de solo) são treinados adequadamente para usar corretamente os kits e, mais: para prevenir infecções durante viagens aéreas.

–> Leia outras recomendações da ICAO sobre viagens de avião

Então a segunda coisa a se considerar ao viajar de avião é: confie nos comissários de bordo. Eles sabem perfeitamente o que fazer e vão proteger os passageiros se um caso de coronavírus ocorrer na sua viagem. Desde o início do surto, o vírus certamente viajou de avião algumas vezes para chegar a locais tão distantes quanto China e Paraguai – e mesmo assim não há centenas de pessoas contaminadas no voo em que aquele primeiro paciente estava. Isso deve ser um bom sinal, certo? Você deve saber que as aeronaves sofrem um processo de limpeza minucioso, especialmente aquelas em que algum caso de covid-19 tenha sido detectado.

Funcionário desinfeta cabine de avião da Vietnam Airlines (foto: VnExpress/Ngoc Thanh/4.fev.2020)

Lembre-se de uma dica importante, que vale nos aviões e vale na vida: “Em caso de despressurização da cabine, máscaras de oxigênio cairão automaticamente sobre a sua cabeça. Puxe uma das máscaras, coloque-a sobre o nariz e a boca, ajustando o elástico ao redor da sua cabeça e respire normalmente. Só depois auxilie crianças e outras pessoas ao seu lado. Existe uma razão simples para essa instrução, que vai tão contra nosso instinto: precisamos estar bem (e vivos!) para poder ajudar os outros. Se você tentar colocar a máscara antes na criança ou em um idoso, pode perder a consciência e desmaiar sem ajudar ninguém.

Mantenha-se informado e fuja (voando!) das fake news

Enfim, a minha última sugestão é talvez mais básica do que “lave as mãos”: informe-se! Se você já tem um voo marcado e prefere não viajar, saiba o que a companhia aérea permite que você faça (sua tarifa pode incluir um reembolso completo, um adiamento sem taxas etc.) “Muitas empresas, como American Airlines, Delta, Frontier, JetBlue e United Airlines estão isentando clientes de taxas de remarcação para voos comprados em determinadas datas”, informa o NPR.

Mesmo que a sua compra não esteja dentro do período estipulado, “sempre vale a pena perguntar“, diz o analista de transportes do programa Here & Now Seth Kaplan. “Você vai pedir que abram uma exceção, mas se você for gentil e explicar a sua situação, é possível que consiga uma brecha”. Essa regra (ser gentil), vale lembrar, funcionará em muitas situações na sua vida. E acredite: talvez você simplesmente não possa alterar a sua viagem – para isso existem tarifas mais e menos flexíveis (e você fez a escolha ao comprar as suas passagens!)

Ao se informar adequadamente, você vai estar em um bom caminho para aquela minha dica inicial: evitar o pânico. Poderá inclusive ajudar outras pessoas que tenham dúvidas e estejam, talvez, à beira do pânico. Você, por exemplo, vai descobrir que a taxa estimada de letalidade da covid-19, de 3,4%, embora pareça muito alta (a gripe comum mata 0,1% dos casos), pode estar superestimada, por uma razão simples: pessoas que têm versões mais leves da covid-19 são sub-representadas em contagens oficiais, pois podem não estar doentes o suficiente para procurarem atendimento médico ou perceberem que têm algo mais do que um resfriado. Pesquisas recentes sugerem que algumas pessoas podem ser infectadas pelo novo coronavírus sem apresentar qualquer sintoma.

NA LETALIDADE, O COVID-19 SE PARECE MUITO MAIS COM A GRIPE DO QUE COM SURTOS ANTERIORES DE CORONAVÍRUS – CASOS EM AZUL, MORTES EM VERMELHO (FONTE: TIME, COM OMS E CDC)

Você provavelmente não levará (ou não deveria levar) isso muito a sério, mas o presidente dos EUA Donald Trump disse à Fox News ter um “palpite” de que a mortalidade real seja menos de 1%. E talvez ele esteja até exagerando! Um update curioso enquanto o Brasil aguarda a notícia sobre a contraprova do exame que o presidente Jair Bolsonaro fez após ter sido testado positivo para coronavírus depois de voltar da Flórida: talvez o próprio Trump, que tem se recusado a levar a epidemia (agora pandemia) a sério, esteja contaminado e tenha transmitido a doença para integrantes da comitiva brasileira…

A transmissão do coronavírus é baixa – compare-a com a de OUTRAS doenças (clique para ampliar)

E se a taxa de letalidade (número de pessoas que morrem em relação ao total de casos) pode ser mais baixa do que estimado inicialmente pela OMS, o que dizer então da sua taxa de transmissão? Veja o gráfico: ele mostra quantas pessoas (em cor-de-laranja) se contagiam a partir de um doente (o amarelo) de cada doença – na ordem, de cima para baixo, da esquerda para a direita, MERS (síndrome respiratória do Oriente Médio), gripe comum, ebola, covid-19, SARS (síndrome respiratória aguda grave), caxumba, rubéola, varíola e sarampo. Se você considerar que há muita gente que não se vacina e não vacina os próprios filhos contra o sarampo mas que estão desesperadas com o coronavírus, vai entender a importância de estar informado!

Finalmente, além de se informar — por meios de comunicação confiáveis, não pela mensagem de teor duvidoso que o seu tio enviou no grupo de WhatsApp da família — não leia e não espalhe fake news. Há muita bobagem sendo dita, escrita e disseminada sobre a covid-19 na internet e você não vai querer ser o bobalhão que ajuda a espalhar esses boatos, né? A regra é simples: na dúvida, não compartilhe. O Ministério da Saúde tem uma interessante coleção das mais imaginativas fake news sobre o vírus. Provavelmente a mensagem do seu tio deve estar lá, desmentida. A respeito disso a OMS, que criou um grupo especial para lidar com a “infodemia”, como chama a epidemia de informações falsas, também se manifestou:

“Sabemos que toda epidemia é acompanhada de um tsunami de informações e que, junto, vêm desinformação e boatos. Isso acontece desde a Idade Média. A diferença, com as redes sociais, é que o fenômeno é amplificado, viaja mais rápido e mais longe, como os vírus que acompanham as pessoas.

Sylvie Briand, diretora do Programa de Emergências em Saúde da OMS, responsável por conter a infodemia

Se quiser se divertir e aproveitar para aprender algo sobre o que o coronavírus não é, o jornal O Globo reuniu as 15 mentiras mais compartilhadas sobre o vírus. E esse texto do The Drum explica por que a desinformação é um perigo claro e presente durante o surto de coronavírus. Boa leitura e… boa viagem!

Foto de capa: CNN Travel/ What airlines are doing to sanitize planes (SERGEI SUPINSKY/AFP via Getty Images)