A recente escalada do conflito entre Estados Unidos e Irã escalou por aqui outro “conflito”: o de opiniões que tenho sobre as decisões do Trump e as do meu pai sobre o mesmo assunto. Em certo ponto de uma acalorada conversa sobre o assassinato do general iraniano, ele perguntou:

Mas afinal, de que lado você está?

E eu respondi: do lado da paz. Ele virou os olhos.

“Estar do lado da paz” não se trata de ser hippie, vestir uma toga, fumar maconha o dia todo e cantar Imagine, dos Beatles, achando que o mundo pode ser um conto de fadas. Nem de longe. O mundo hoje está clamando por chefes de estado que tenham responsabilidade ao governar seus países e de se relacionar com outros, que tenham seriedade com relação ao meio ambiente, que entendam a revolução e as disrupções tecnológicas, que se atualizem com relação às mudanças pelas quais o planeta e as sociedades estão passando. É por isso que a “pirralha” Greta Thunberg move centenas de milhares com seu discurso, longe da ingenuidade que se poderia esperar da idade que tem.

Sobre essas mudanças, recomendo fortemente a todos, líderes mundiais ou não, a leitura do 3º livro do historiador Yuval Noah Harari, 21 Lições Para O Século 21, já lançado no Brasil pela Companhia das Letras.

Minha experiência como jornalista, tendo feito a cobertura de temas internacionais de lá do Oriente Médio em uma época especialmente movimentada (2004-11), em que houve ao menos duas guerras, inúmeras tentativas de paz, número incalculável de decisões políticas erradas, um conflito morno que como os vulcões acabaria eclodindo com a fúria da lava… tudo isso me dá um pouco de credencial e um olhar sem o maniqueísmo típico de quem está distante do problema.

Depois de viver e de experimentar de bem perto essas realidades, já no Brasil, fui editor de Inter em mais de uma ocasião, sempre atento e interessado no assunto. Estudo e leio sobre conflitos, de forma geral, e sobre o Oriente Médio em particular há pelo menos 20 anos, metade da minha vida; três quartos dos meus livros, que poucos não são, me dão opiniões e versões diversas sobre esses episódios, tratados há décadas por presidentes, primeiros-ministros e líderes supremos como um jogo de xadrez qualquer, sem responsabilidade senão com o jogo de poder e sem lembrar que se tratam de pessoas, não de peões em um tabuleiro.

Na minha adolescência e juventude, crescendo como um garoto judeu em uma comunidade que, tanto quanto a “outra”, ensina uma narrativa de pretos-e-brancos, de mocinhos e bandidos, do bem contra o mal, me acostumei a olhar para os palestinos, para os árabes de forma geral, para os iranianos etc. como “inimigos”. Era simples: nós aqui, eles ali.

Uma só viagem, sem retorno

Para tornar todo esse caldo ainda mais quente e complicado, sou filho e neto de judeus que nasceram no Egito, saíram de lá fugidos do pan-arabismo de Nasser na década de 1950, como ocorreu com 1 milhão de outros judeus e judias de todas as idades em 11 países árabes e muçulmanos. Aos 8, meu pai, caçula, chegou à América do Sul, depois de uma viagem em que aprendeu espanhol porque o destino inicial era Montevidéu, no Uruguai. Acabaram vindo para o Brasil, onde meu avô trabalhou usando como ferramenta o que séculos de exílio deram aos judeus: a capacidade de adaptação e os idiomas. Eles se tornaram apátridas no momento em que deixaram o Oriente Médio.

O documento familiar egípcio de viagem tinha uma inscrição que está marcada no meu coração desde o dia em que o vi pela primeira vez, como ao achar um tesouro escondido: “Válido para uma só viagem, sem retorno”. A frieza da frase cunhada em francês e em árabe refletia a decisão: vocês são convidados de honra para nunca mais voltar. Pesquisei extensamente sobre o assunto para contar em um livro que nunca tive a coragem de escrever a história desse milhão de pessoas que perderam seus lares e, em muitos casos, tudo que tinham, fossem bens, fossem suas raízes. Mas como eles, centenas de milhares de pessoas, que se chamariam palestinos, perderam igualmente suas casas em Israel, movidos por decisões erradas de suas lideranças. A História conta a história de pessoas, não de fatos frios.

Tenho tanta bronca e embrulho no estômago ao lembrar dessa história como tenho ao ler sobre o Holocausto (ou ao assistir ao secretário de Cultura do meu país fazendo apologia ao nazismo), que vitimou milhões de pessoas por apenas serem o que eram: judeus, na sua vasta maioria, 6 milhões de almas, metade do que hoje é a população de São Paulo, mas também ciganos, gays, negros, quem não fosse “ariano”… Nada é defensável nesse movimento forçado de pessoas, o mesmo que estampa fotos e manchetes nas capas de jornais e de revistas décadas depois. E a história se mostra tão cíclica quanto cruel na repetição de seus erros: os que eram judeus ontem são hoje muçulmanos escapando de guerras, africanos escapando da fome, haitianos escapando da tragédia coletiva e sem fim que cada tremor, cada doença, cada erro político espalham sobre o país mais pobre das Américas.

Quando morei por sete anos no Oriente Médio, baseado em Jerusalém, depois em Tel Aviv, mas visitando algumas vezes Ramallah, Cidade de Gaza, Cairo, Amã, Petra, Belém, conheci seres humanos e conversei com muita gente. Estive em assentamentos judaicos dentro de território palestino, em cidades palestinas dentro de território israelense. Fiz um sem-número de entrevistas com pessoas amputadas com parentes amputados ou mortos, com lideranças, com mães de filhos mortos para o conflito, com sobreviventes do Holocausto, com etíopes levados para a liberdade, embora sem fugir do racismo, em Israel, falei com empreendedores, políticos decorativos e outros atuantes, prefeitos, premiês, presidentes, atores, soldados e guerrilheiros, ativistas pela paz.

Hoje, de certa forma feliz por estar longe da imprensa em crise mas com uma parte de mim doída por não mais estar contando essas histórias de gente comum, não acho que ser “a favor da paz” faça de mim uma pessoa ingênua e sonhadora. Está na hora de nossos líderes se comportarem como tal. De olhar para o botão que autoriza o lançamento da próxima salva de mísseis e enxergar pessoas. De entender a responsabilidade que lhes foi confiada no voto. De sintonizar a escuta nos movimentos jovens que pedem tudo isso. Mas talvez seja esperar demais. Por isso escrevo esse texto: porque cada leitor é uma dessas pessoas comuns que, perto ou longe de qualquer conflito, sentirá os efeitos dele. Vivemos em um mundo cada vez menor e é inocência esperar que a bomba que matou o general iraniano não tenha efeito na sua rotina. Pode demorar, mas ele virá.

Deixo uma reflexão de Harari, o autor do livro que recomendei (e de mais 2, anteriores, Sapiens e Homo Deus), sobre isso:

Nossas vidas são moldadas por coisas que acontecem no outro lado do mundo, seja a economia chinesa, a política estadunidense ou as mudanças climáticas. Mas a maioria dos sistemas educacionais continuam ensinando a história como algo local.