A luz rara e quase distante acusa algum movimento, talvez um vaivém de quem arruma a casa, entre apressada e exausta do dia que termina, rega as poucas plantas que resistem à ausência, coloca comida para o cachorro… Não tenho ideia. É quase distante mas minha visão é quase ruim, bem longe de boa. Você vive outra vida. Nem sei se é ainda a mesma pessoa, provavelmente não. Mas você deve fazer as mesmas coisas, repetir as mesmas manias, como aquela de querer a casa sempre impecável como se fosse um museu. Enquanto olho para a sua entre tantas outras luzes acesas, entre reflexivo e curioso, meu assistente virtual, que você nem conheceu, toca uma música que não tive tempo de te ensinar, num idioma que você nunca teve sequer curiosidade de aprender. E a cantora, em voz de quase carícia, diz que “aos pouquinhos, volto a ser quem eu era/ aos pouquinhos, encontro a minha tranquilidade/ talvez esteja até ficando mais bonita/ aos pouquinhos“. A música muda, sua luz se apaga, a escuridão é quase reinante no requadro da minha janela. Tão perto, tão longe. Você vive aí outra vida. Aqui eu vivo a minha e, aos pouquinhos, volto a ser quem eu sempre fui. Prefiro essa minha versão de mim. Boa noite, então.