Amos Oz era muito mais do que isso, mas para mim ele estará sempre associado aos livros, a muitos livros, a leituras tensas e intensas sobre um pedacinho do mundo que eu adotei como meu depois de conhecer pela sua literatura, que me acompanhou também quando eu lá vivia.

Foi a partir do olhar desse escritor, romancista, jornalista e intelectual israelense, nascido em uma Jerusalém anterior à fundação do país, que eu conheci a fundo a sociedade israelense. Foi a partir de sua literatura que fui apresentado a um tipo de narrativa que quase inexiste nas diásporas, que insistem, nos dois lados dessa relação em especial, em olhar para o outro com ódio, suspeição e rancor.

Foi a partir dos livros emotivos, ricos em detalhes de personalidades e verdadeiros, que levam à reflexão em cada página e traçam um honesto panorama do Oriente Médio, que me apaixonei por essa região.

Amos Oz era muito mais do que os livros e os artigos que escreveu. Era um ativista incansável pela paz. Era habitante de um dos mais bonitos desertos que eu já conheci (em uma dessas ocasiões, quase nos conhecemos pessoalmente, o que acabou não acontecendo por uma questão de última hora).

Meu favorito dele não é o clássico “Uma história de amor e trevas” (2002), mas o sensível “A caixa preta” (1988), que recomendo fortemente. Hoje Oz nos deixa, aos 79 anos, vítima de um câncer.

Como destacou o DW, Oz era um dos escritores israelenses mais lidos no mundo, ganhador de dezenas de prêmios. Sua obra foi traduzida para 45 idiomas. Em 2007 Oz esteve no Brasil e foi entrevistado no Roda Viva. Assista:

A notícia é triste para quem aprendeu a ver aquele pedaço do mundo com a coragem e o vislumbre de Oz. Que descanse em paz.

Versão editada e ampliada de texto publicado originalmente no Instagram. Foto: Imago/Leemage