Partiu hoje o grande Audálio Dantas.

É uma triste notícia para quem o conheceu e teve a oportunidade de ouvi-lo, sempre sorridente, meio tímido. É uma notícia triste para o Brasil, que atravessa uma temporada de declarações estapafúrdias em favor da mesma ditadura militar que fez Audálio chorar e contra a qual lutou. É sem sombra de dúvida uma triste notícia para o jornalismo.

Em 1978, foi deputado federal pelo então MDB, considerado por muitos um dos mais influentes do país. Sua luta pelos direitos humanos rendeu, em 1981, um prêmio das Nações Unidas. Audálio era jornalista daquela geração de vorazes contadores de histórias, que não se cansavam até ter a notícia. Ele começou a carreira de repórter em 1954, no Folha da Manhã (atual Folha de S.Paulo).

Quarto de despejo e Vlado

Foi esse repórter que descobriu e editou os primeiros trechos do que seria o livro Quarto de despejo, de Carolina de Jesus, moradora de uma favela paulistana. O livro foi traduzido para 13 idiomas, rodou o mundo e fez manchetes, mas deixou Carolina tão pobre quanto antes de publicá-lo. Audálio narra, com sua característica modesta, a descoberta dos escritos de Carolina no livro Tempo de reportagem: histórias que marcaram época no jornalismo brasileiro, ao introduzir uma reportagem a respeito.

Conheci Audálio ainda estudante, fascinado pelas histórias que havia lido no livro Repórteres, que ele lançou naquela época. Dei meus pulos e consegui trazê-lo para palestrar na faculdade, onde também promoveu o livro (tenho como um tesouro uma cópia autografada e uma foto – em papel – que tiramos juntos).

Na minha memória, Audálio estará sempre conectado à luta contra a ditadura militar e a favor da redemocratização e à busca da verdade sobre o assassinato, nas dependências do DOI-CODI, do também jornalista e colega Vladimir Herzog.

À época do “suicídio” de Vlado – versão da morte sustentada pelos militares e depois desmentida – Audálio era presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo e foi peça-chave para revelar a farsa. Na foto ao lado, Audálio chora durante o velório do colega, em 1975. Anos mais tarde, ele publicou um livro em que conta a atuação do SJSP em relação ao caso:

A Segunda Guerra de Vlado Herzog é um livro que eu estava devendo havia 37 anos. O caso já foi esmiuçado de vários ângulos, houve até filme a respeito, mas estava faltando colocar em destaque a atuação do sindicato naquela ocasião. A resistência, o culto ecumênico na Catedral da Sé, toda a reação à morte do Herzog foi um desafio à ditadura, um divisor de águas no processo de liquidação do autoritarismo, e o nosso sindicato teve participação importante em tudo isso.

Audálio Dantas, por ocasião do lançamento do livro

Em 2013, ele foi presidente da Comissão Nacional da Memória, Justiça e Verdade dos Jornalistas Brasileiros. Audálio também foi o primeiro presidente eleito por voto direto da Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas). Em 2005, foi vice-presidente da ABI (Associação Brasileira de Imprensa).

Por tantos e tantos outros feitos e escritos, sua morte é uma triste notícia. Descanse em paz, mestre. Obrigado pelos ensinamentos.

Versão editada e ampliada de texto publicado originalmente no Instagram. Foto de capa: divulgação