Ela tem apenas oito anos mas já tem perfil no Twitter, com milhares de seguidores, página no Facebook, aparece na Wikipedia em cinco idiomas (farsi, francês, inglês, japonês e português) e está prestes a publicar um livro de memórias, cujo título, em tradução livre, será “Querido mundo“. Infelizmente, não serão memórias felizes. A garotinha síria Bana Alabed, que ficou conhecida ao contar para o mundo, na internet, os horrores da guerra civil em sua cidade, Aleppo, foi eleita pela revista Time como uma das 25 pessoas mais influentes da internet em 2017.

A Time apresentou assim a menina ao justificar a escolha para sua lista anual de influenciadores, que tem Donald Trump, Katy Perry, Kim Kardashian, Rihanna e J.K. Rowling: “Quando uma menina de 7 anos tuíta que está com medo de morrer em um ataque a bomba, o mundo presta atenção. E assim foi com Alabed, cujos despachos diários do leste de Aleppo, tomada por rebeldes (‘bombas caindo agora como chuva’, ‘meus irmãos estão muito assustados e eu não quero isso’), aumentaram a consciência sobre os horrores da guerra civil na Síria em tempos em que poucos jornalistas conseguem ter acesso à região“.

Bana retratada na lista anual da revista Time (Foto: Adem Altan/AFP/Getty Images)

A pequena Bana faz as postagens com a ajuda da mãe dela, Fatemah Alabed, que fala inglês. Em uma das mensagens da menina, ela pede, com a meiguice de qualquer criança, atenção do mundo ao tema dos refugiados, como ela (atualmente Bana vive com a família na Turquia, depois de receber a cidadania de um demagogo Erdogan): “Quero lembrar vocês sobre os milhões de refugiados no mundo hoje. Pense sobre eles, eles não têm casa, hospital, trabalho, nada”. Assista:

Bana é mais uma das crianças sírias vítimas dessa guerra interminável. Li por aí que ela chegou a ser chamada de “Anne Frank de Aleppo”, em referência à menina judia cujo diário contando a perseguição nazista virou best seller no mundo. Mas ela não é a primeira. Em agosto do ano passado a pequena Rouwaida Hanoun, então com 5 anos, foi comparada à menina judia por um jornalista do New York Times, que escreveu que, naquele dia, Anne Frank era uma menina síria.

O destino das várias Annes Franks tem sido trágico – a original, nascida na Alemanha e escondida por meses em uma casa de uma família holandesa, morreu aos 15 anos depois de ser encontrada pelos nazistas e deportada para Auschwitz. Rouwaida, que aparecia poeirenta e ensanguentada numa foto após um ataque, ganhou alguma notoriedade (e depois foi esquecida) justamente pela trágica cena.

Agora Bana Alabed pede um destino diferente para as crianças sírias. Ouso compará-la não com Anne Frank, mas com Malala Yousafzai, cuja determinação e coragem lhe custaram caro mas geraram a consciência sobre a ameaça taleban no Paquistão. Que o mundo preste a mesma atenção à pequena Bana.

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