Vi na internet. Dois argumentos bastante claros e embasados em dados e em números para derrubar a política do presidente estadunidense, Donald Trump, de barrar imigrantes de sete países com maioria muçulmana, que ficou conhecido como Muslim ban. A polêmica medida gerou uma onda de protestos em aeroportos e cidades nos EUA.

paises-muslim-banOs países incluídos na ordem executiva de Trump são Iêmen, Irã, Iraque, Líbia, Somália, Sudão e Síria. Nacionais desses países (inclusive os que tenham dupla nacionalidade) ficaram proibidos de entrar os EUA por um período de 90 dias.

A ordem também suspende o sistema de refugiados do país por 120 dias.

Primeiro argumento: Os motivos de mortes de cidadãos estadunidenses

Essa tabela mostra quantos cidadãos dos EUA morreram anualmente vítimas de diversas razões. Vamos a elas: imigrantes muçulmanos jihadistas: 2*; terroristas de extrema-direita: 5*; todos os terroristas muçulmanos jihadistas (incluindo cidadãos estadunidenses): 9*; bebês armados: 21*; raios: 31*; cortadores de grama: 69*; atropelados por ônibus: 264*; queda da cama: 737*; baleados por outro estadunidense: 11.737*. Não é preciso ser um gênio para entender que Trump deveria estar investindo tempo e recursos para prevenir outro tipo de ameaça – real – contra os cidadãos de seu país (ironicamente, as políticas dele de controle de armas não são invejáveis para lidar com esses dados).

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*Explicando os números (fontes nos links acima):

  • os 3 primeiros itens referem-se a ataques com vítimas desde o 11 de Setembro (veja mais abaixo um quadro que inclui os dados dos ataques de 2001)
  • bebês armados são definidos como menores de três anos que acidentalmente dispararam armas carregadas, matando outras pessoas ou a si mesmos
  • mortes por raios são a média de 10 anos segundo dados da National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA)
  • os dados de mortes causadas por cortadores de grama, atropelamento por ônibus e queda da cama referem-se à média de 10 anos, segundo o levantamento “Underlying Cause of Death”, de 2014, dos Centers for Disease Control and Prevention (CDC)
  • baleados por outros estadunidenses são uma média dos 10 anos entre 2005 e 2014, segundo o estudo “Injury Prevention & Control: Data & Statistics (WISWARS)” dos CDC

Segundo argumento: As vítimas e de onde vieram seus algozes

Segundo esse gráfico, 3.004 cidadãos estadunidenses foram mortos, entre 1975 e 2015, por terroristas de países muçulmanos. Ironicamente, não há registros de mortos por nacionais de nenhum dos países incluídos no Muslim ban – todas os mortos foram vítimas de ataques perpretados por terroristas da Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Egito e Líbano (e nenhum desses países está incluído na ordem de Trump). Isso não significa que esses quatro países devam ser incluídos na lista – só mostra que o argumento do presidente para justificar a ordem é vazio. E que há interesses diversos envolvidos, como a relação promíscua entre EUA e Arábia Saudita, para citar apenas um.

É verdade que esse gráfico não mostra as fontes dos números, mas considerando o número de mortos nos ataques do 11 de Setembro (2.996) e a procedência dos terroristas (19 homens ligados à al-Qaeda, dos quais 15 eram sauditas, 2 emiradenses, 1 egípcio e 1 libanês), a conta fecha.

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Argumento bônus: A falsidade do argumento do terrorismo, exposta na TV

A apresentadora da CNN Poppy Harlow entrevistou o ex-assessor sênior e porta-voz da campanha de Trump Jack Kingston sobre os efeitos do Muslim ban em parar o terrorismo – principal argumento do presidente para justificar a ordem. Na entrevista, Kingston diz que os 7 países não são exatamente conhecidos por amar os EUA. Então a âncora o interrompe e pergunta: “E a Rússia?” O ex-congressista escapa de responder.

Poppy, então, mostra a dificuldade de um refugiado sírio, como um exemplo, para ser aceito nos EUA – uma maratona de checagens e burocracias. Ela então dispara:

“Congressista, você pode nomear um só ataque terrorista neste país que tenha sido executado por um refugiado sírio?”

O político, então, elenca alguns ataques: Fort Hood, Orlando, San Bernardino. Ela não pensa duas vezes e o interrompe, de novo: “Deixe-me corrigir isso para os nossos espectadores”. E explica: o atirador de Fort Hood, Nidal Hassan, nasceu em Arlington, Virgínia, os pais dele eram palestinos; o atirador de San Bernardino, Syed Rizwan Farook, nasceu em Illinois, os pais dele eram paquistaneses; sua mulher, Tashfeen Malik, nasceu no Paquistão, viveu na Arábia Saudita, veio para os EUA; o atirador em Orlando era um estadunidense (Omar Mateen, nascido em Nova York de pais sauditas)”. Conclui seu argumento com a pergunta:

Como isso pode ser uma justificativa?

Assista a seguir.

Não deixe de ler: Tudo que você precisa saber sobre o ‘Muslim ban’ de Donald Trump (Telegraph)

Foto de capa: Trump exibe a ordem executiva (foto: UPI/Barcroft Media/Telegraph)

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