Carrego sempre comigo um caderno que circulou entre amigos em uma festa de despedida da minha primeira viagem internacional sozinho, quando passei seis meses em um kibutz. Israel estava mergulhado em uma intifada – o violento levante palestino que levava o terror a cidades e a locais frequentados por civis, de escolas a restaurantes. Havia muita tensão e nos 186 dias que passei em Israel não houve semana em que ao menos uma bomba não explodisse em algum lugar.

No pequeno caderno, um dos meus amigos escreveu um texto de que sempre me lembro. Dizia assim, como recordei em um post publicado em 2006 em um blog que mantive a partir de Israel:

Gabriel,
Sobreviver à guerra não é tão difícil assim. Um bando de gente sobreviveu. O difícil é sobreviver à guerra como fizeram Hemingway, Celine, Cervantes, Jack London. É sobreviver a ela e, além disso, conseguir transformá-la em relatos, narrativas, palavras, notícias – quiçá em poesia. Meu desejo mais sincero não é que você simplesmente sobreviva à guerra. É mais que isso, que você tenha a força e o empenho necessários para transformar essa experiência em algo mais. Retransformar a guerra em poesia. E carregar essa experiência consigo para todo o sempre, ao mesmo tempo que a divide com cada um de nós. Boa viagem. (FDC)

Hoje estamos diante de uma outra guerra, a que os presídios brasileiros estão vivendo. Em apenas duas semanas ano novo adentro, houve três massacres em três presídios de três diferentes Estados. O resultado mais visível: 134 mortes de detentos. Nas entrelinhas, uma guerra entre facções criminosas que ganha escopo cada vez maior. Hoje, Amazonas, Roraima e Rio Grande do Norte, os três Estados em que houve rebeliões, decidiram pedir uma ação mais ampla do governo federal para controlar a situação.

Familiares buscam notícias de presos amotinados em Natal (foto: Everton Dantas/ NOVO)
Familiares buscam notícias de presos amotinados em Natal (foto: Everton Dantas/ NOVO; clique para ampliar)

Em meio a esse contexto, li hoje o relato de uma colega que acompanho mais ou menos desde a época em que ganhei a bonita dedicatória sobre sobreviver à guerra. Desde novimnha, Marina Cardoso sempre me impressionou com seus textos. A cobertura do massacre na Penitenciária Estadual de Alcaçuz, em Natal (RN), em que 26 presos foram mortos, alguns deles decapitados (o local reviveu momentos de tensão hoje), foi a primeira do tipo dela. “Definitivamente não estava ali para explorar a dor do outro em troca de alguns cliques”, escreveu.

Marina trabalha escrevendo para o jornal potiguar NOVO. Publicou, entre outras, “Barbárie em Alcaçuz: familiares dos presos relatam o drama de aguardar notícias de dentro do presídio“. Hoje, foi além. Escreveu “O que eu vi do lado de fora da Penitenciária Estadual de Alcaçuz“, o relato em primeira pessoa de uma jornalista que não deixa de lado o pessoal, o sensível, o observador – e que mesmo assim é capaz de noticiar, apesar da dor. De, quiçá, transformar a guerra em sentimento.

Destaco um trecho do texto dela:

Assim que cheguei para o dia de cobertura, me recomendaram “não entrar na onda das mulheres”. Resisti o máximo que pude. Mas, não pude deixar de ser solidária e emprestar meus ouvidos para que elas pudessem desabafar. Elas queriam (e precisavam) ser ouvidas, mas isso não significava que gostariam de ser expostas nos veículos de comunicação.

Leia na íntegra no NOVO Jornal.

Foto de capa: Everton Dantas/ NOVO Jornal

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