Sete anos atrás um terremoto de 7 graus de magnitude sacudiu o Haiti. Cinco anos atrás, como editor de internacional do Estadão.com.br, escrevi o texto abaixo, que abria um especial que publicamos no portal sobre o aniversário de dois anos da tragédia, em que 300 mil pessoas morreram e 310 mil ficaram feridas.

Quase um ano mais tarde, em março de 2011, o Japão sofreu um terremoto de magnitude 8,9 – o maior do país e o 7º maior da história. Quase 300 pessoas morreram, a devastação causada pelos tremores e pelas ondas de tsunami foi imensa. À diferença do Japão, dois anos depois o Haiti não tinha se reerguido. Sete anos e algumas outras crises humanitárias depois, o país segue devastado.

Como se não bastasse a triste realidade do país mais pobre das Américas, da nação mais miserável de todo o hemisfério ocidental, a cólera, a história de escravidão e ditaduras, como se não bastasse tudo isso, o Haiti foi nocauteado por um devastador terremoto em janeiro de 2010. As imagens não cessam de chocar: edifícios históricos em ruínas, pessoas esquálidas que nem sequer conseguem chorar, diante de casas que não mais existem, corpos amontoados e retorcidos, tratados sem qualquer dignidade.

O tremor, de 7 pontos na escala que nunca passou de 9, foi causado por uma falha até então desconhecida pelos cientistas. Matou mais de 200 mil pessoas e deixou 1,5 milhão de desabrigados. Dois anos depois, a conclusão mais óbvia é a de que nada ou pouca coisa mudou na vida dos haitianos. Pior: o país, além de precisar enfrentar a tragédia e as consequências da destruição, e o crescimento do cólera, está à mercê de outros terremotos, para os quais não está e não estará preparado.

Infelizmente, boa parte do material especial do Estadão desapareceu ou não está mais acessível. Algumas coisas, entretanto, ficaram – como os emocionantes relatos em áudio, para a Rádio Estadão, e em vídeo, para a TV Estadão, do excelente repórter especial Lourival Sant’Anna, que esteve no país por ocasião do aniversário. As matérias de Sant’Anna e várias outras que foram reunidas ali viraram pó, provavelmente em alguma reforma do site. Consegui encontrar algumas, que deixo aqui:

Vale a pena, ainda, assistir aos vídeos com relatos de Sant’Anna e de Guga Chacra, que cobriu a devastação do terremoto no Haiti em 2010.

Para se ter noção do efeito de um tremor desses em diferentes locais, a comparação entre o Japão e o Haiti ajuda. Nos dois terremotos, a diferença de mortos é gritante: 300 no Japão, após um tremor de magnitude 8,9 contra mais de 300 mil (o número no texto estava desatualizado, mas mantive o original) no Haiti, após um tremor de magnitude 7. Aqui no Chile, no ano passado, nos assustamos com um sismo de magnitude 6,4 – que não fez nenhum estrago além de acelerar alguns corações. O assunto rapidamente virou piada na internet.

Sete anos depois, deixo algumas dessas “imagens que não cessam de chocar”, reunidas por diferentes publicações em diferentes aniversários do terremoto. Algumas das imagens têm conteúdo extremamente forte. Dias depois da tragédia, o blog The Big Picture reuniu imagens impactantes do rastro de destruição e sofrimento. Os fotógrafos Shaul Schwarz e Timothy Fadek, da TIME, fizeram imagens exclusivas da catástrofe em Porto Príncipe, reunidas em uma galeria publicada no portal da revista.

Em maio de 2010, quatro meses depois do terremoto, o repórter fotográfico do Estadão Tiago Queiroz esteve no Haiti e fez imagens de lixo acumulado, crianças feridas, prédios em ruínas e a patrulha feita nas ruas da capital. O repórter fotográfico Jonne Roriz, da Agência Estado, também cobriu o drama no Haiti – revelando inclusive imagens de corpos nas ruas de Porto Príncipe – alguns de pessoas executadas na esteira do terremoto.

Homem recolhe  água em rio coberto de lixo, em Porto Príncipe (foto: Emilio Morenatti/AP)
Homem recolhe água em rio coberto de lixo, em Porto Príncipe (foto: Emilio Morenatti/AP)

Em novembro, o fotógrafo do Estadão Nilton Fukuda reuniu, em uma galeria, imagens impressionantes da epidemia de cólera no país, resultado do terremoto. Até aquele momento, como escreveu Fukuda, mais de 900 pessoas já haviam morrido em decorrência da doença. “O surto de cólera atinge mais da metade das províncias do país e mais de 15 mil pessoas já foram hospitalizadas”.

Também o Estadão fez uma galeria com imagens de Sergio Dutti sobre a noite haitiana. As fotos acompanham texto de Leandro Colon, cujo trecho destaco:

A noite em Porto Príncipe é um cenário de guerra. Sem energia elétrica nem casa, famílias usam tijolos dos escombros do terremoto para demarcar seus espaços. Neles, colchonetes, papelão, lençóis, talheres, copos, baldes e bacias dividem os pequenos lugares com crianças, jovens e adultos desabrigados. Cadeiras de praia também são usadas como cama. Não há banheiro, muito menos banho. Para diminuir o uso das ruas como depósito de urina e fezes, líderes comunitários pedem para que sejam usados sacos plásticos, que, segundo o governo, serão recolhidos em algum momento.

O palácio presidencial de Porto Príncipe, destruído no terremoto (foto: Ricardo Arduengo/AP)
O palácio presidencial de Porto Príncipe, destruído no terremoto (foto: Ricardo Arduengo/AP)

Em 2013, em um especial chamado “Reconstruindo o Haiti”, o Guardian publicou “Haiti 2010 earthquake: then and now – in pictures“, com algumas imagens selecionadas do terremoto – como a do palácio presidencial, que ficou parcialmente destruído, levando o então presidente haitiano, René Préval, a dizer que não tinha para onde ir, depois de também a sua própria casa ser destruída.

Dois anos atrás, no 5º aniversário do terremoto, a Mashable publicou “Then and now: 5 years after devastating quake, Haiti continues to rebuild“, mostrando que pouco tinha mudado. Também no aniversário de 5 anos da tragédia o site AllDay reuniu imagens mostrando o país lutando para se reerguer.

Finalmente, alguns dados do terremoto, compilados e publicados pela CNN:

  • Entre 220 mil e 316 mil mortos
  • Cerca de 300 mil feridos
  • 1,5 milhão de pessoas deslocadas inicialmente
  • Em setembro do ano passado, o número de deslocados passava de 55,1 mil
  • 3.978 escolas danificadas ou destruídas no terremoto
  • US$ 13,34 bilhões em ajuda humanitária entre 2010 e 2020

Foto de capa: um homem toca violão ao lado de uma criança diante das ruínas da Catedral de Porto Príncipe, capital haitiana, em 11 de janeiro de 2012, exatos dois anos depois do terremoto (foto: Orlando Barría/Efe)

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