Este texto é a atualização de um texto publicado no Ondda

Cidades deveriam ser feitas para pessoas. Essa é a ideia, não é? Mas parece que no caso das maiores cidades brasileiras, megalópoles que estão entre as maiores do mundo, com população bem acima dos 5 milhões de habitantes, o caso não é esse. Moro atualmente no Chile. Meses atrás estive a trabalho em São Paulo e, mais uma vez, constatei isso – a cidade em que nasci e cresci, onde minha família e meus amigos moram (e morrem) não é feita para pessoas. É feita para carros, toneladas de plástico, vidro e ferro conduzidas por pessoas que esquecem dessa condição.

Faixa de pedestresO exemplo mais óbvio e gritante é o da faixa de pedestres. Não precisa ser gênio para entender: faixas de pedestres não servem para carros, não servem para bicicletas, não servem para motos, não servem para ônibus. Servem para o indivíduo mais vulnerável da cadeia alimentar do trânsito: o pedestre. Apesar disso, parece que ninguém respeita: nem os motoristas de carros, nem os ciclistas (infelizmente, não são os que mais respeitam), nem os motociclistas, nem os motoristas de ônibus. Não é preciso muito tempo e dedicação para testemunhar, em qualquer esquina de qualquer grande cidade brasileira, o desrespeito à faixa de pedestre.

No excelente documentário “Luto em luta”, feito pelos idealizadores dos movimentos Viva Vitão e Não Foi Acidente, o engenheiro de trânsito e vice-presidente da Abraspe (Associação Brasileira de Pedestres) Horácio Augusto Figueira mostra na rua alguns flagrantes de desrespeito em faixas de pedestres. Deixo abaixo um trecho do documentário, que tem mais de uma hora de duração e merece ser assistido na íntegra:

Morando fora por sete anos (no Oriente Médio) e mais um ano (agora, no Chile), sou sempre daqueles que, distraídos e acostumados com a civilidade estrangeira de motoristas de carros que param para os pedestres, levam buzinadas e ofensas de motoristas brasileiros apressados mesmo sobre a faixa, especialmente em conversões, quando há mais risco de os andarilhos serem atingidos. Já quase fui atropelado algumas vezes por achar que o bom senso prevaleceria e daria espaço para quem anda a pé. Doce ilusão…

Fico indignado quando um carro avança sobre as pessoas nas faixas de pedestre. Arrumo briga. Faço a pessoa descer do carro e perder o tempo que não perderia se respeitasse o pedestre e seguisse viagem. Tento fazer os outros pensarem. Provoco, mesmo. É um trabalho de formiguinha, uma “missão civilizatória do universo” que parece não ter qualquer efeito entre os que viajam dentro do conforto do ar condicionado. Não desisto, mesmo assim.

Outro exemplo claro do desrespeito aos pedestres é a forma como nossas vias e edifícios são construídos. Os prédios escondem suas entradas para pessoas em acessos exclusivos de carros, fazendo ainda mais difícil a vida de quem caminha. Ruas muitas vezes não têm calçadas – quando há, estão em estado lamentável de conservação. Há poucas faixas de pedestres e em muitos lugares, não há nenhuma. Faltam semáforos de pedestres em esquinas movimentadas e perigosas (em uma cidade que desrespeita o pedestre mesmo quando há faixas e quando há semáforos).

As coisas precisam mudar. Não é difícil. O Chile, que tem uma cultura muito parecida com a brasileira e não é, a exemplo do Brasil, um país de primeiro mundo, respeita seus pedestres. A punição é severa. O olhar do pedestre quando não se para na faixa, por alguma razão, é de deixar qualquer bom motorista envergonhado. Acima de tudo, o respeito é grande. E o entendimento de que o tempo que se “perde” ao parar na faixa para esperar os pedestres é irrelevante comparado ao valor da vida. Existe aqui a percepção de que no trânsito somos todos pedestres. A máxima que fecha as propagandas brasileiras de carro não serve para ensinar o óbvio: quando você desce do seu carro, por mais que seja para caminhar até o elevador do seu prédio ou para atravessar a rua para ir até a padaria, você se transforma em pedestre. E vai exigir o mesmo respeito pelo qual eu brigo no trânsito.

O que falta nas grandes cidades brasileiras é exatamente isso: respeito, cidadania. É a compreensão de algo tão simples quanto verdadeiro: por menos que você caminhe, por mais dependente que você seja das rodas do seu veículo, em algum momento você vai precisar dar alguns passos no trânsito. Pense nesse momento. E pare quando um pedestre quiser atravessar.

Foto de capa: pedestres e ciclistas em Copenhagen (crédito: Ramboll, com um excelente material sobre cidades para pessoas e o conceito de liveability – vale ler)

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