Nahum Sirotsky e Gabriel Toueg na Casa do Jornalista, em Jerusalém (foto: Acervo pessoal)
Nahum Sirotsky e Gabriel Toueg na Casa do Jornalista, em Jerusalém, 2002 (foto: acervo pessoal)

Nahum Sirotsky era um homem apaixonado por contar histórias. Contava histórias o tempo todo. Contava histórias de seu passado, das incríveis coberturas que fez ao longo das mais de sete décadas de jornalismo, das pessoas com quem se relacionou – os mafiosos e os poderosos, os anônimos e as celebridades.

Nahum contava histórias para todo mundo. Fosse impondo em alguma rádio a voz grossa e pigarreada, fosse em uma conversa em alguma ruela da Cidade Velha de Jerusalém com algum interlocutor que encontrava no caminho. Nahum sempre encontrava alguém para ouvir suas histórias. Tive a sorte de ser uma dessas pessoas e de ouvir muitas de suas histórias.

Alguns não queriam ouvir, de verdade. Mesmo assim, como um Forrest Gump, ele narrava fatos que pareciam retirados de alguma história de fantasia. Como, por exemplo, a história de quando foi torturado pela ditaduta Vargas ao ser confundido com um perseguido político que tinha um sobrenome parecido. Dessa história, que parecia fantasia, tinha uma marca no dedo anular de cada mão.

Nahum em casa, em Tel Aviv (foto: Gabriel Toueg para ABI)
Nahum em casa, em Tel Aviv (foto: Gabriel Toueg/ABI)

Nahum era apaixonado por crianças. Brincava em português com crianças israelenses nas ruas de Tel Aviv e arrancava gargalhadas delas, que provavelmente não entendiam uma palavra sequer. Nahum não podia ver uma criança, um bebê: precisava interagir com eles, sempre. As mães israelenses, desconfiadas e sisudas, nem sempre gostavam. Mesmo assim, Nahum brincava e se divertia com os pequenos.

Nahum se movia lentamente. Segundo outra de suas histórias, dessas que também deixaram uma marca, um garoto palestino acertara em cheio seu joelho com uma pedra lançada de uma funda em um momento de distração durante uma cobertura na Cisjordânia ou na Faixa de Gaza (a confusão é toda minha). Nunca quis operar o joelho, embora precisasse. Reclamava de dores mas esquecia delas quando começava a contar alguma história.

Nahum na redação do Zero Hora, 2008 (foto: Ricardo Chaves/Agência RBS)
Nahum na redação do Zero Hora, 2008 (foto: Ricardo Chaves/Agência RBS)

Apesar de mover-se lentamente, Nahum era sagaz, perspicaz e rápido nos pensamentos e nos comentários. Não deixava nada em branco, não deixava nada passar. A idade dava a ele vantagem de observação e a possibilidade de falar o que fosse a quem fosse, quase sem filtros. Foi assim que aprendi muito do que sei de jornalismo, graças às vezes em que ele apanhava nas mãos um texto que eu tinha escrito, amassava e jogava no lixo, mandando escrever outro. Apesar disso, conquistou amigos, que lhe foram sempre fiéis.

Para mim, além de amigo, professor e herói, Nahum foi a ponte que me ligava com um passado em que o mundo e o jornalismo pareciam ser melhores do que são hoje, em que redações eram esfumaçadas mas reuniam amigos, em que colegas remavam juntos para mover adiante o barco que os empregava, em que assumir alguns riscos em nome da profissão era algo que parecia ainda valer à pena.

Nahum partiu no final de novembro do ano passado. Desde então o mundo está sem suas histórias. O jornalismo, já pobre e manco, ficou sem um de seus maiores heróis – ao menos sem um de meus maiores heróis.

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