Still image from undated video of a masked Islamic State militant holding a knife speaking next to man purported to be James Foley at an unknown location(ATUALIZADO) Já escrevi aqui sobre os riscos de cobrir uma zona de conflito, algo que a maioria do leitorado parece ignorar quando critica a cobertura feita por um ou outro veículo. Já escrevi inclusive sobre os riscos de cobrir situações de conflito que parecem inofensivas. Ontem, quando a notícia sobre a decapitação do jornalista norte-americano James Foley começou a pipocar nas agências de notícias e o vídeo apareceu nas telas de TV da redação, mais uma vez lembrei dessa história toda.

Foley, um jornalista freelancer que trabalhava para o Global Post e já tinha sido sequestrado pelo regime de Muamar Kadafi, na Líbia, não foi o primeiro e certamente não será o último jornalista morto ao cobrir as atrocidades de guerras. Em 2002 Daniel Pearl foi decapitado e, mesmo sem as redes sociais que temos hoje, as imagens rodaram o mundo rapidamente. Você se lembra. Se você é jornalista, certamente se lembra.

As imagens da decapitação de Foley (e eu fui atrás do vídeo na íntegra, você vai saber achar se quiser) são terríveis. Pode parecer meio mórbido, mas eu confesso: vi e revi, virando a cara quando a faca na mão do terrorista começa a atravessar a garganta do jornalista. Precisava acreditar naquelas imagens para dar a notícia com segurança, como fizemos no Metro, ontem. Não me contentei com o vídeo editado que apareceu no YouTube, precisava ver a coisa toda.

Há algo de muito incômodo no assassinato de Foley, de Pearl, de todos e de cada um dos jornalistas usados como arma de guerra em uma guerra travada por bárbaros. Jornalistas não deveriam ser vítimas de conflitos entre países, guerrilhas ou grupos terroristas. Jornalistas não aparecem em regiões de conflito por diversão ou por fazer parte de um lado ou de outro (daí minha crítica, conhecida por quem já ouviu minhas palestras, sobre o jornalista “na cama” – que é como eu traduzo o termo “embedded” – com militares). Jornalistas contam histórias e não devem se tornar notícia.

Quando viramos, cria-se um dilema. Uma discussão entre colegas que cobrem ou escrevem sobre o Oriente Médio e sobre o Isis teve início com a divulgação, pelo grupo, das imagens da decapitação de Foley. Alguns, como a CNN, decidiram não mostrar as imagens. Outros, como o New York Post, que deu o pior frame do vídeo na capa (procure, você também vai saber achar se quiser), foram longe demais.

Mesmo no Brasil, tão distante psicologicamente “dessa loucura toda”, algumas tevês optaram por não reproduzir o vídeo, deram apenas o áudio. Certamente houve aquelas que decidiram dar, mas eu não vi – parece, às vezes, que no Brasil há um cuidado maior… Aqui no Metro, demos uma foto parecida à que ilustra este post – que mostra mais o barbarismo do terrorista do que o sofrimento do jornalista, embora esteja implícito.

O jornalista é, também, muitas vezes, o filtro do horror do mundo – não tinha passado uma hora do acidente e já tínhamos recebido as fotos dos corpos de Eduardo Campos e equipe, semana passada; as imagens dos doentes com o vírus ebola que você vê publicadas por aí são o que sobra do funil do bom senso…

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