Há malucos que querem fazer crer que não há um povo palestino, como Flavio Flores da Cunha Bierrenbach, em seu texto,“Palestina”, publicado há algumas semanas na Folha de S.Paulo. Escreve o autor, ministro aposentado do Superior Tribunal Militar:

Não existe povo palestino. A Palestina é uma região geográfica, assim como a Patagônia ou o Pantanal.

Mereceu, como teria merecido um tapa na cara dos argumentos, a resposta que recebeu de Salem Nasser, professor de Direito Internacional da DIREITO GV que escreveu, também na Folha de S.Paulo, “O cadáver da Palestina”:

Trata-se de um tipo especial de racismo, que não se basta com representar a sua vítima como torpe, vil, traiçoeira e naturalmente orientada para a violência.

Também em resposta a Bierrenbach, Guilherme Casarões, professor de Relações Internacionais das Faculdades Rio Branco e do MBA da FGV (e, devo dizer, pelo que venho acompanhando, um dos comentaristas mais equilibrados nessa questão, naturalmente mais equilibrado que Nasser), escreveu, no Observatório da Imprensa, o texto “Palestina, sim!”, em que lembra:

Devemos frisar que mesmo Israel reconhece a Autoridade Palestina, seja como interlocutor nas negociações de paz ou como entidade representativa dos árabes (palestinos!) que habitam a Cisjordânia e a Faixa de Gaza.

E há malucos, igualmente malucos, que querem fazer crer que a remoção do Estado de Israel do mapa, como já advogou um ex-presidente iraniano, seria a solução para o problema do Oriente Médio que ele claramente desconhece. É o caso de Ricardo Melo, em seu texto publicado hoje na mesma Folha, “Israel é aberração; os judeus, não”:

Inexiste solução para a crise do Oriente Médio que não inclua o fim do Estado de Israel. A afirmação é comprovada pela própria história.

Ironicamente, a solução de Ricardo Melo, que “foi um dos principais dirigentes do movimento estudantil ‘Liberdade e Luta’ (‘Libelu’), de orientação trotskista”, vai na mesma direção do que defende a extrema direita israelense, em uníssono capaz de fazer corar (de raiva e vergonha) os moderados:

A saída civilizada seria a construção de um Estado único onde árabes e judeus convivam em harmonia.

Em seu blog no Estadão, Guga Chacra, correspondente do jornal em Nova York, escreveu um “Guia para entender o conflito Israel-Hamas sem precisar ler extremistas”, no qual se refere aos textos de Bierrenbach e de Melo, com sugestões bem simples. Vale a pena ler.

Dias atrás andei pensando em escrever um texto sobre a dificuldade de ser (ou tentar ser) um moderado em meio a tantos extremos – dos dois lados, como se observa nos artigos publicados pela Folha de S.Paulo relatados aqui. Confesso que de tão difícil, até esse texto me fugiu das mãos e da paciência que eu costumo ter para, didática e calmamente, explicar um conflito que não se resume em sugerir a inexistência de um lado ou o extermínio do outro.

Fico, de novo, com o Chacra, que há alguns dias publicou, em seu blog, um texto em que resume o meu sentimento. Caros extremistas, suas opiniões não vão fazer o cenário atual mudar. Israel não deixará de existir e os palestinos não passarão a ser uma ficção. A isso tomo a liberdade de acrescentar o que tenho dito e escrito Facebook afora: suas opiniões não apenas são inócuas na realidade do conflito como ajudam a importar para cá um sentimento de antagonismo entre comunidades que, quer vocês gostem, quer não, aprenderam a conviver bem. Que tal tomar o mesmo caminho?

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