Por Solly Boussidan*

Meteoro ItamaratyInfelizmente o Brasil, que há pouco tempo dava passos gigantes para tornar-se relevante diplomaticamente, se entrincheirou numa das piores políticas externas de sua história recente, com o Itamaraty diminuído por uma ideologia partidária que despreza os interesses de longo prazo da nação e se apodera da agenda diplomática sem compromisso histórico com os objetivos brasileiros, estrangula a instituição que deveria ter os recursos para projetar o tão alardeado “novo Brasil” de modo contundente e relevante pelo mundo com um orçamento anual inferior ao da Secretaria Fiscal Estadual de São Paulo, baixo a uma presidente que tem ojeriza clara à instituição e aos nossos diplomatas.

A política externa brasileira, que nos últimos 12 anos por raras vezes conseguiu ser relevante em qualquer assunto do Oriente Médio – de Israel/Palestina a Egito, Síria, Irã, Líbano, Bahrein, Kuwait ou Iêmen-, para além de uma política comercial aquém de nossas necessidades, conseguiu apequenar-se de vez, dar as passadas já experimentadas por alguns de nossos vizinhos de envergadura bolivariana e ser ejetado para o limbo dos não-interlocutores. Uma pena para o nosso país, que tem de sobra exemplos de pluralidade e criatividade para contribuir numa crise arrastada e carente de ideias inovadoras.

Vai levar um tempo para nos recuperarmos desse baque e passarmos a ser vistos novamente como interlocutores plausíveis.

Em meados de 2005, em uma entrevista com a então porta-voz geral do exército israelense, o chefe-do-comando geral e o responsável por assuntos diplomáticos com a América do Sul de Israel, perguntei porque tão poucas chances de entrevistas a jornalistas brasileiros, participações em discussões intergovernamentais de alto nível ou um empurrão israelense para que o Brasil participasse mais ativamente na região. A resposta, quase em uníssono foi que “o Brasil não é sério o suficiente para negociar de forma aberta sem influências internas que não deveriam ter relevância, se exime de se comportar como uma país sério no Oriente Médio e é muito instável em sua política exterior para ser confiável em um nível mais profundo”.

À época, achei que esse era o pior estágio a que poderíamos chegar. Mesmo com as besteiras iranianas, achei o posicionamento no Brasil à época da Guerra do Líbano de 2006 e os conflitos em Gaza em 2008, 2009 e 2010 muito melhores do que as críticas que havia escutado anos antes.

O Brasil conseguiu ultrapassar o “volume útil” do fim do poço com essa atitude infeliz de nossa política externa: não contribuiu para nada, não salvou sequer uma vida, alienou um parceiro político-econômico, perdeu por ora qualquer chance de ser escutado em assuntos de guerra e paz por lá, revoltou um amplo segmento judaico-cristão-evangélico doméstico e que votará em outubro e, de quebra, com declarações ao lado das visitas de ministros europeus, norte-americanos, asiáticos e da ONU, ainda passou o papelão de ser mostrado como pouco profissional em discussões de crise social de nível global.

(Isso, claro, sem mencionar o vergonhoso apoio velado que a Rússia conseguiu conquistar do Brasil e dos outros Brics ao incluírem na declaração final da cúpula, na última semana, texto que implicitamente “limpa a barra” russa na anexação da Crimeia e na guerra na Ucrânia, dias antes do abate de um avião civil com quase 300 passageiros).

Ainda tem como piorar a situação. Espero que alguém consiga tomar o leme desse barco desgovernado antes que fiquemos relegados ao status de Venezuelas, Argentinas ou Bolívias no plano internacional. Já passou da hora de o Brasil mostrar sua face responsável no cenário internacional e, daí sim, ter como pleitear qualquer coisa em organismos multilaterais de uma forma aceitável.

Até lá, continuaremos sendo vistos, sim, como um país grande, com economia importante, mas com total incapacidade de ajudar o planeta quando saídas urgentes para momentos trágicos são necessárias.

*Solly Boussidan, jornalista e analista internacional, colabora com a Folha de S.Paulo e a BBC Brasil

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