Texto publicado originalmente no Brasil Post

PALESTINIAN-ISRAEL-CONFLICT-GAZA

Tenho lido muitas opiniões – algumas publicadas na imprensa israelense, brasileira e internacional, outras em intermináveis e cansativas discussões pelo Facebook – sobre o que está acontecendo neste momento naquele canto do Oriente Médio que já teve o nome de Palestina e hoje abarca Israel, Cisjordânia e a Faixa de Gaza, especialmente. Tenho notado, pelas discussões e pelas perguntas que me fazem, uma confusão enorme sobre aquela região e os episódios recorrentes de violência entre palestinos e israelenses, para ficar apenas ali…

Trata-se de um conflito muito mais antigo do que a criação do Estado de Israel, em 1948, como alguns tentam fazer acreditar, o tempo todo… Além disso, é um imbróglio que tem a característica peculiar de, como alguns outros na história mundial, se repetir em ciclos.

O ciclo atual é de um confronto entre Israel e o grupo palestino Hamas, que tomou a Faixa de Gaza em 2007 à força, em um episódio que, segundo a Cruz Vermelha, deixou 118 mortos e mais de 550 feridos. O Hamas venceu as eleições parlamentares palestinas em 2006, um ano antes, e não teve sucesso para formar um governo de coalizão e, especialmente, para conquistar o apoio (financeiro, sobretudo) da comunidade internacional. O resultado foi uma escalada da violência com o grupo rival, o Fatah, com o qual, recentemente, firmou uma reconciliação.

Para que se tenha uma ideia de quão repetitivos são esses episódios, eles aconteceram nos mesmos moldes, com algumas pequenas diferenças, pelo menos duas outras vezes: em novembro de 2012 (operação Pilar de Defesa) e no final de 2008 (operação Chumbo Derretido). Em comum, eles têm o fato de que Israel, de um lado, e o Hamas, de outro, trocam mísseis e acusações, em um ciclo que parece interminável.

Algumas das diferenças: em 2008-9 (o conflito se estendeu ano novo adentro) houve uma incursão terrestre do Exército de Israel em Gaza, opção que não está descartada neste ciclo mas ainda não ocorreu. Como consequência, o número de mortos foi muito maior, dos dois lados (entre 1,1 mil e 1,6 mil, de acordo com a fonte). Em 2012, quando 2,3 mil mísseis foram disparados contra Israel, o Egito era governado por Mohamed Morsi, líder da Irmandade Muçulmana, grupo islâmico em que o Hamas, criado em 1987, tem suas origens.

O cenário, enquanto você lê este texto, é o seguinte. Em Israel governa uma coalizão de direita, sob a liderança do premiê Binyamin Netanyahu, e com extremistas como Naftali Bennet, que é contrário à criação de um Estado palestino, e como Avigdor Lieberman, que esses dias defendeu uma ação “até o fim” contra o Hamas, incluindo a retomada da Faixa de Gaza, da qual Israel retirou 8,5 mil colonos e a presença militar em 2005. Danny Danon, vice-ministro da Defesa, também linha-dura e controverso, foi afastado por Netanyahu depois de criticar a forma com a qual o governo estava conduzindo a operação.

Na Faixa de Gaza, Ismail Haniyeh é o líder político do Hamas. Curiosamente, três irmãs dele vivem no sul de Israel, como cidadãs do país. Mohammed Deif é o chefe do braço armado do grupo. O líder do braço político, Khaled Mashal, vive atualmente no Catar, e mesmo antes da onda de violência, estava em Damasco (de onde saiu em meio à guerra civil na Síria, que já matou mais de 170 mil pessoas em quatro anos). Um dos principais líderes do grupo no território, Mahmoud al-Zahar, teve sua casa destruída nos bombardeios de Israel, mas não estava no local no momento.

No Egito, depois da deposição de Mursi, no ano passado, e de novas eleições, governa Abdel Fattah el-Sisi, militar alinhado a Hosni Mubarak, ditador que presidiu o país por mais de 30 anos e deixou o poder em 2011, em meio à Primavera Árabe. Sisi tenta recuperar a capacidade de mediação que o Egito tinha com Mursi. Ditador anti-religioso e nacionalista, ele se posiciona contra o Hamas e, mesmo sem despertar confiança entre os palestinos, propôs um cessar-fogo entre o grupo e Israel.

Chegamos, então, ao ponto central deste texto. Com a proposta egípcia, o episódio atual do conflito correu o risco de fugir das previsões. Netanyahu, mesmo pressionado internamente para manter a ofensiva, aceitou a trégua e a colocou em vigor, suspendendo os ataques contra a Faixa de Gaza. O Hamas, entretanto, chamou o cessar-fogo de “piada”, por meio de um porta-voz, discutiu a proposta de forma interminável e não deu nenhuma resposta uníssona, retomando os disparos contra Israel, que respondeu dizendo que, diante dos ataques, não resta outra opção senão ampliar a operação contra o grupo.

Aqui, duas observações finais. Primeiro, que em meio disso tudo, sofrem os palestinos. Os israelenses também sofrem, mas bem menos, protegidos por um avançado e preciso sistema antimísseis e com a vantagem de ter para onde correr nos cerca de 15 segundos quando soa a sirene avisando a iminência de um míssil. Os palestinos, esses sim, sofrem de verdade, com mortos, feridos, casas e hospitais destruídos e, sobretudo, um futuro destroçado. E quem são os algozes dos palestinos? O senso comum diria que é Israel, que é quem ataca. Mas o verdadeiro algoz é o Hamas, que, mesmo enfraquecido e isolado, mantém os ataques sabendo da retaliação e ainda usa a população civil na Faixa de Gaza como escudos, ao disparar de dentro de mesquitas e de perto de escolas e ao dizer à população que permaneça mesmo tendo sido avisada sobre ataques iminentes de Israel. É o Hamas que impede a entrada ou confisca ajuda humanitária no território. É do Hamas que os palestinos precisam cobrar sua libertação.

Segundo, que Israel perdeu a chance de quebrar a rotina exaustiva desse conflito. Ao aceitar a trégua, mudou o jogo: mostrou que apesar de deixar de disparar contra Gaza, segue sendo atacada por extremistas do Hamas. Houve condenações dos bombardeios de Israel mesmo entre governos aliados, como Londres, Paris e Washington. A morte de palestinos civis é condenável em qualquer aspecto e em qualquer cenário, mesmo quando usados como escudos humanos. Depois, ao ser bombardeado novamente em meio à trégua, Israel cedeu às pressões enquanto deveria ter demonstrado contenção e, quiçá, ter fomentado um diálogo entre os palestinos. Perdeu a chance de mudar as coisas e de evitar mais mortes. O número já supera 190.

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