Vou abrir aqui no blog uma espécie de FAQ para responder a perguntas comuns que recebo de colegas jornalistas ou de curiosos sobre meu trabalho ou sobre o Oriente Médio, onde vivi durante sete anos. É uma forma de ajudar pessoas que tenham as mesmas dúvidas. De qualquer maneira, como sempre digo, os canais de sempre estão abertos para quem quiser escrever e perguntar. Igualmente, se alguém quiser complementar com alguma dica, deixem nos comentários e eu coloco aqui, com os créditos!

A dúvida de hoje tem a ver com o trabalho como jornalista em Israel. Aí vão algumas dicas, então.

Meu primeiro conselho é que você entenda bem sobre a região. Há coisas que não são ditas ou ensinadas e que você só vai aprender por lá, mas o Oriente Médio é provavelmente uma das regiões mais bem estudadas, comentadas, documentadas e conversadas. Há especialistas em todo lugar, gente muito boa, e é preciso aproximar-se dessas pessoas. E, antes de fazer as malas e mudar-se para Israel ou para a Palestina (uma opção a ser considerada), é preciso estar ciente de que você está embarcando com destino a um terreno que conhece bem, ao menos na teoria.

É preciso saber a diferença entre drusos e curdos, entender que existem judeus e muçulmanos seculares e ortodoxos, ter clara a noção de que nem todos os muçulmanos são árabes e nem todos os árabes são muçulmanos, conhecer a geografia e a história da região etc. É bastante trabalho. Mas é necessário. Faça a lição de casa com antecedência para não perder tempo (ou cometer erros evitáveis) na hora da verdade! Fiz um post a respeito certa vez que pode ajudar um pouco: Se você vai conversar sobre Oriente Médio com alguém, é bom saber…

É importante ter vínculos com algum órgão de imprensa fora de Israel, para ajudar no primeiro passo burocrático importante, que é o credenciamento junto ao Government Press Office (GPO). Com uma carta timbrada e assinada – e passando nos critérios deles – você recebe uma credencial de jornalista que se não abre muitas portas, pelo menos evita que se fechem outras (oficiais do Exército e autoridades políticas muitas vezes não conversam com jornalistas não credenciados, a menos que você tenha uma relação de confiança com eles). Na Palestina, a coisa é mais branda mas vale a pena também procurar o órgão responsável pela imprensa e pelo menos conhecer as pessoas.

Para trabalhar como jornalista em um veículo israelense, existem algumas opções para quem não sabe hebraico mas domina o inglês bastante bem. Os principais jornais têm versões em inglês: o Haaretz, que tem edições impressas em hebraico e inglês e versão bilíngue também na internet, e o Yedioth Aharonoth, que tem versão em inglês apenas na internet. O Jerusalem Post é publicado apenas em inglês, mas eles são extremamente deficitários e não costumam pagar. Isso pode ter mudado, vale a pena um contato pelo menos para conhecer os jornalistas de lá (o jornal é uma porcaria do ponto de vista de conteúdo, mas tem gente muito boa).

Saber outros idiomas é sempre uma vantagem em Israel. Além de existir um público imigrante que fala uma imensa variedade de idiomas, do russo ao francês, de espanhol a amárico, há sempre iniciativas locais de veículos – em geral na internet – voltados para o leitorado fora de Israel. Quando eu morei lá, durante alguns meses trabalhei em um site que começou fazendo a tradução do Jornal Nacional local para quatro idiomas. Fui admitido para a desk de espanhol porque domino o idioma, embora seja brasileiro (eles não quiseram abrir um canal em português, com razão no meu entendimento). Mesmo na imprensa tradicional pode ser bom demonstrar habilidades em outras línguas, que podem ser úteis porque o país, o tempo todo, se relaciona intensamente com outras nações (seja porque houve um ataque contra israelenses na Bulgária ou porque o papa vai visitar a Terra Santa).

Hebraico e árabe, idiomas oficiais em Israel, são ferramentas importantíssimas na conversa com fontes. A coisa muda de figura (e isso não é nenhuma novidade) quando você entrevista um personagem no idioma dele em vez de as declarações ficarem perdidas em uma língua que não é a dele e menos ainda a sua – em geral, mas não sempre, vai ser o inglês. Terminei minha primeira entrevista em hebraico suando frio, mas com a sensação boa de ter deixado o entrevistado à vontade o bastante para se preocupar apenas com o conteúdo – e não com a forma – daquilo que estava me contando. Para se virar no dia a dia, entretanto, você na verdade não vai precisar nem do hebraico, nem do árabe: o inglês é amplamente utilizado, embora com sotaques característicos e caricatos, e não há preconceito ou barreiras significantes com relação a estrangeiros – muitos vão perguntar de onde você é e sorrir um sorriso largo ao ouvir “Brasil”!

Em questões práticas, a mais importante constatação é que a vida em Israel (especialmente em Tel Aviv, um pouco menos em Jerusalém) é cara. Muito cara. Os aluguéis são caros (embora desburocratizados, se você está acostumado à realidade brasileira). Vale a ideia de dividir apartamento, também pela experiência antropológica. A comida é cara. São questões que merecem planejamento para evitar problemas com dinheiro. É preciso ter um bom seguro de saúde, porque os hospitais são caros (e um seguro de vida, se você for cobrir conflitos!) O transporte público é de qualidade mas não funciona aos sábados… Ter um carro pode trazer dores de cabeça e alugar um pode ser caro. Há serviços de fixers (tradutores ou “fazem-tudo”, que podem te acompanhar em pautas específicas) e eles são caros!

Passando para uma questão mais filosófica, vale levar na bagagem a noção de que o conflito lá tem principalmente dois elementos essenciais: um é o fundamentalismo, dos dois lados. É o que faz com que um ortodoxo não olhe na sua cara por você ser mulher mas é também o que faz com que milhares deles continuem amarrados à ideia de permanecer em assentamentos na Cisjordânia. É, do outro lado, o que faz com que militantes disparem mísseis contra populações civis inocentes, desarmadas, e atinjam indistintamente escolas, asilos, supermercados ou, em um modelo já menos utilizado, ônibus e lanchonetes em ataques suicidas.

O segundo elemento tem a ver com a forma de pensar dos povos da região – e aí incluo os israelenses (judeus ou não), os árabes (muçulmanos ou não), os iranianos, os palestinos… Estamos acostumados a pensar com um modelo ocidental e a entender questões a partir dessa perspectiva. Mas as coisas não são da mesma forma lá. É preciso levar em conta isso ao conversar com um israelense secular, com um judeu ortodoxo, com um muçulmano comum, com um partidário do Hamas, com cada um por lá. Os conceitos que temos de democracia, de paz, de valor à vida etc etc etc são diferentes no Oriente Médio.

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