Achei que jamais usaria esse espaço para falar sobre a região em que vivi durante sete anos, entre 2004 e 2011, o Oriente Médio. Para isso, tinha o blog Expresso Oriente, no qual escrevia bastante sobre minha experiência em Israel, nos territórios palestinos (nos quais, a rigor, não poderia entrar) e nos países aos quais eu tinha acesso livre e legal – Egito e Jordânia.

Mas o relato de uma colega jornalista que está em Israel neste momento me fez repensar essa decisão e deixar de lado a ideia de não falar sobre o Oriente Médio aqui. É a velha história: podemos sair do Oriente Médio (ou da guerra, uns dizem), mas o Oriente Médio nunca sai de nós. Faz parte do que sou.

A Cidade Velha de Jerusalém ao entardecer (Free Israel Photos)

Eu acho que Jerusalém é de ouro. De ouro e da pedra clara que, com os raios solares, deixa a cidade lindamente dourada nos finais de tarde. E essa cor não se ofusca mesmo com os absurdos que acontecem por lá. Na realidade, uma cidade que já viu guerras, crucificações, conquistas, destruição e reconstrução, está acostumada até aos absurdos.

De pedra Jerusalém foi feita. De pedra tem sido seu destino. De pedra muitas de suas agonias, bem como suas mortes e repetidas ressurreições. De pedra também o segredo de seu mágico encanto. (Erico Verissimo, Israel em Abril)

Enfim, o relato da Gabriela Korman no blog Yalla!, feito pelos participantes do Programa de Estágios da Faculty For Israeli-Palestinian Peace-Brasil (FFIPP-Brasil) 2013, aponta para a questão de como ortodoxos judeus encaram (e tratam) as mulheres. Na verdade, o post dela me impressiona nem tanto pelo fundamentalismo, mas pela atuação vergonhosa da polícia, que confisca vestimentas religiosas como se fossem armas e prende mulheres como se fossem uma ameaça à segurança nacional. E sabemos que fazem isso para evitar a revolta dos ortodoxos, que são, eles sim, uma ameaça.

Está na hora de existir igualdade de gênero em um país que se divulga como sendo “a única democracia no Oriente Médio”, mas que separa homens e mulheres nos ônibus, nos templos religiosos e, em algumas ocasiões, até na rua – sem dúvida nas casas e na função familiar de uns e outros. Estão corretas as mulheres que se vestem de talitot e de sua própria fé e vão para o Muro das Lamentações rezar. O lugar é aberto e deve ser para todos.

Israel está se tornando cada vez mais uma teologia fundamentalista e isso definitivamente não combina com democracia. O que acontece no Muro das Lamentações, como no relato da Gabriela, se repete nos assentamentos, em que colonos queimam mesquitas, agridem palestinos (não vou entrar no mérito do equilíbrio ou da questão de defesa) e sequer podem ser punidos pelo Exército – por lei, só a polícia pode prender cidadãos israelenses.

Yesh anashim im lev shel even, yesh avanim im lev adam (Há pessoas com coração de pedra, há pedras com coração de gente; Ofra Haza, Hakotel)

Em tempo e a propósito: na próxima edição da revista Viagem&Turismo, da editora Abril, sai uma matéria minha sobre Jerusalém, cidade sagrada em igual medida (e isso se vê nas ruas, nos monumentos, nas vestes, nas tradições e nas tensões) para judeus, para muçulmanos, para cristãos.

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