A garota, seus 20 e poucos anos, até tentou a discrição quando entrou na farmácia do shopping lotado, caminhou entre as gôndolas com produtos de beleza e dietas milagrosas e foi até o balcão. Em silêncio quase sepulcral, disse ao cara do avental que queria um KY. Eu só ouvi porque estava realmente muito perto, mas a azia que eu estava sentindo era tão forte que teria dado no mesmo se ela tivesse subido no balcão e gritado para todo mundo ouvir.

Fingi que não sabia o que estava acontecendo, como um bom e discreto observador. Ela queria discrição, eu notei, então só faltei mesmo assoviar e olhar para o teto. Foi fácil, a azia colaborou bastante.

Volta então o cara do avental, com um tubo que me deixou envergonhado, de tão grande. E, como se fosse garoto-propaganda do KY em canal de compras por telefone, segurou o tubo de forma a que todos os presentes pudessem ver e disse para a moça: “Só temos deste tamanho, grande“. Destaque para “grande”. Cheguei a pensar que ele ia disparar um “mas não ligue ainda” e oferecer alguma promoção para acompanhar.

Não foi difícil notar o desconforto dela, que passou a limpar, com a mão, o suor na testa, apesar do frio condicionado. Acho que ela nem pensou na resposta que deu para o cara do avental, que tinha um sorriso irritante no rosto: “Pode ser”.

Ela queria mesmo era esconder aquela aberração lubrificante, pagar e desaparecer.

E foi o que fez.

Antes, pegou na prateleira de autosserviço (viva o autosserviço!) alguumas camisinhas. Daí, correu para o caixa. Veio a maldita pergunta:

“CPF na nota?”.

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