Tem uma coisa que me irrita muito, mas que sempre me acontece: perder em casa algo que uso todos os dias. Como o celular. Ou a carteira. Ou um anel. Eu perdi em casa meu anel, esses dias, e acordei hoje decidido a encontrá-lo. Antes de acender a luz e abrir a janela, antes mesmo de sair da cama, arrastei a luminária até a beirada da cama e me debrucei como se fosse mergulhar no chão, com a cabeça pendendo e o sangue me fazendo lembrar que tenho veias por ali.

Queria achar o anel no mais improvável dos lugares, mas só vi poeira e um objeto desconhecido.

Fui até o outro lado da cama, me debrucei de novo e vi: era um relógio de mulher.

Fiquei observando o relógio, agora na minha mão. Assoprei para tirar dele a poeira. O relógio funciona, mas o horário está errado, com atraso de uma hora. Deve ter ficado para trás antes da mudança para o horário de verão. A pulseira, de couro gasto e com marcas que acusam o uso e a exaustão, não me ajuda a descobrir a quem pertence. Um dos furos está bem mais marcado, e a circunferência resultante acusa um pulso de menina, pequeno, delicado. É só o que consigo ver no relógio de mulher que estava sob a minha cama.

Mas eu achei o meu anel. E não estava debaixo da cama.

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