Estive na semana passada no campus Mogi das Cruzes da Universidade Braz Cubas, participando de um interessante debate com o Apu Gomes, repórter fotográfico da Folha, e com o blogueiro Bruno Cardoso. O Apu esteve duas vezes na Líbia, recentemente. Cardoso toca o blog O Jornalista, sobre a profissão.

Fui com a complicada tarefa de substituir minha colega de redação Adriana Carranca, que não pôde ir. Complicada porque a Adriana, uma jornalista exemplar e dedicada, esteve duas vezes no Afeganistão. As visitas dela ao país que esteve envolvido em uma das guerras mais arrastadas na região recentemente, renderam o excelente livro “O Afeganistão depois do Talibã”, que eu aconselho para quem quiser aprender sobre os afegãos.

Apu Gomes, Gabriel Toueg e Bruno Cardoso na UBCFoto: Thales Willian

Devo dizer que foi uma oportunidade bem bacana de conversar com estudantes de jornalismo sobre essa profissão apaixonante e sobre a tarefa não menos viciante de cobrir conflitos – algo que eu fiz em pelo menos duas ocasiões durante os sete anos em que morei no Oriente Médio: a Segunda Guerra do Líbano, no verão boreal de 2006, e a operação Chumbo Fundido, de Israel contra o Hamas, na Faixa de Gaza, no inverno de 2008-9.

Falamos sobre ética e sensacionalismo, sobre os riscos que corremos no exercício da profissão em regiões em conflito e sobre outras questões pertinentes ao trabalho fora do país – seja na lama ou cobrindo economia em Londres. Na minha preparação para a conversa com os futuros colegas, encontrei (e sugiro a leitura aos interessados) um livro bem legal sobre o assunto, de uma coleção da editora Contexto que eu já conhecia: “Jornalismo internacional”, de João Batista Natali (2004).

Guerra. Em determinado momento, mencionei a história sobre o “cheiro da guerra”, arrancando risadas dos alunos. A ideia (“cheiro de guerra é cheiro de merda”) não é minha, não, mas do Nahum Sirotsky, sobre quem também falei na ocasião. Ele é um dos jornalistas ainda em atividade há mais tempo no “ramo” das coberturas internacionais. Foi o primeiro correspondente brasileiro na ONU, trabalhando para O Globo, em 1945. E foi, também, o personagem do meu trabalho final de graduação, em 2004.

Meu amigo curitibano e xará Gabriel Paciornik escreveu sobre isso. Ele, que mora em Israel há bastante tempo, relatou em seu divertido blog um encontro que aconteceu na residência oficial da Embaixada do Brasil em Tel Aviv entre o Nahum, o Cid Moreira, ele e eu. Vale a leitura do post, do qual destaco um trecho:

 “Cheiro de guerra é cheiro de merda”, me avisou o Nahum enquanto a gente tomava guaraná. “Quando cai uma bomba do lado de uma pessoa, ela perde total controle das funções intestinais”. E continuou: “Em 1973, eu fui fazer uma reportagem nas linhas perto da fronteira do Sinai com o resto do Egito. Eu fui entrevistar o cara dentro de uma cratera criada por uma bomba, com a esperança na máxima de que uma bomba não cai duas vezes no mesmo lugar. Mas caiu. Ali mesmo”.

Aproveito para deixar para os futuros “focas” as dicas que dei em uma palestra em um colégio, recentemente.

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