As coisas estão se complicando no Oriente Médio. Dia desses ouvi que a região nunca mais vai ser a mesma. Talvez soe cataclismático demais, mas é fato que as coisas estão mudando a velocidades insanas. A queda de Mubarak, no Egito, não significou apenas uma vitória da primavera árabe, que em apenas 18 dias conseguiu mudar o rumo das coisas por lá. Mubarak cedeu aos protestos em 11 de fevereiro – portanto há apenas sete meses.

A saída do ditador e as incertezas sobre o futuro do país mais importante do Oriente Médio criam um vácuo que precisará naturalmente ser preenchido por alguém. Fica cada vez mais óbvio que a Turquia de Erdogan está buscando ocupar esse papel – ao se distanciar de Israel, aliado histórico, tenta se aproximar de outros regimes e conquistar a liderança que o Cairo sem Mubarak não tem mais.

Na semana passada, quando os mesmos opositores do regime de Mubarak invadiram a sede da diplomacia israelense no Cairo, forçando a saída do embaixador, ficou claro que Israel está cada vez mais isolada. Talvez o país nunca tenha enfrentado tamanho isolamento, nem mesmo depois da Guerra dos Seis Dias, em 1967, quando conquistou territórios e a antipatia da comunidade internacional.

Hoje, a chancelaria israelense decidiu esvaziar a Embaixada em Amã. Vale lembrar que Egito e Jordânia são os únicos países com os quais Israel tem acordos de paz na região – e que as populações, contudo, não são simpáticas ao Estado judeu, como eu mesmo já notei em conversas que tive durante visitas que fiz às duas nações.

Na ocasião da invasão da Embaixada israelense no Egito, o embaixador brasileiro no país, Cesário Melantonio, chegou a dizer que acredita que Ancara, Teerã e Cairo formarão uma espécie de coalizão contra Jerusalém. Acho exagerado pensar que Erdogan se aproxime do regime de Ahmadinejad. Não é interesse turco se identificar com os aiatolás.

Mas mostrar-se contrário a Israel passou a ser uma boa estratégia para conquistar corações e passar a ser candidato preferido a líder regional. Episódios mais e menos recentes – como o ataque israelense à flotilha turca que terminou com a morte de nove pessoas, a atitude do vice-premiê de Israel de humilhar o embaixador turco em um encontro diante da imprensa, a expulsão do embaixador israelense de Ancara e a suspensão de acordos de comércio entre os dois países – sinalizam nessa direção.

E como se tudo isso não fosse o bastante, na semana que vem os palestinos vão à ONU tentar o reconhecimento de seu Estado. É bastante provável que saiam de lá com as mãos abanando, e eu acho bem possível que isso gere uma onda de protestos – uma primavera palestina em pleno outono israelense.

Sete meses fizeram mais pelo Oriente Médio do que dez anos fizeram pelos Estados Unidos – sim, eu me refiro aos dez anos que terminaram no domingo. O que reservam os próximos sete?

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