É preciso entender coisas cruciais sobre este Oriente Médio para que se possa, em primeiríssimo lugar, dar algum próximo passo em direção a qualquer situação que destrave o beco sem saída em que israelenses e palestinos, mas não só eles, se encontram hoje.

O jornalista Guga Chacra, um dos estudiosos mais objetivos da região, é bem direto ao listar algumas delas, hoje.

Acima de tudo, entretanto, é necessário que os extremistas, israelenses e palestinos, comecem a entender e lidar com os fatos e a combater de verdade os mitos. Sem isso, nada feito.

E os extremistas não estão nos quiosques de Tel Aviv que vendem drogas sintéticas ou nas padarias de Ramallah que exalam o cheiro da manhã. Não estão entre os taxistas que atravessam a praça Tahrir do Cairo e viajam até as pirâmides cobrando preços irrisórios. Tampouco nos bares de rock alternativo de Teerã.

Eles estão no Parlamento de Gaza, na Knesset de Jerusalém, no Majlis de Teerã e no Majilis Al-Sha’ab do Cairo. São sujeitos como Ismail Haniyeh, Ahmadinejad, Lieberman, Khaled Mash’al, Ovadia Yosef…

São desses que insistem em disseminar os mitos que desmontam as tentativas de criar um Oriente Médio no qual poderia ser possível viajar de carro entre Aswan, no sul do Egito, e Aleppo, no norte da Síria, passando pela calma e bonita paisagem do Mediterrâneo à esquerda, em Tel Aviv e Beirute.

Ao longo dos últimos sete anos conversei com muita gente por aqui. Apesar das frustrações comuns e de uma falta de esperança quase convincente de tão repetitiva, o desejo que a maioria expressa é o mesmo de quem mora em Barcelona, São Paulo, Sydney ou Los Angeles. Tão óbvia que nem merece o clichê.

A empolgação vista no Cairo com a derrubada de Mubarak desviou a atenção de algo importante. A capacidade de organização e de coordenação em uma revolta que tomou as ruas, resistiu aos dias e semanas, insistiu na exigência uníssona e soube ser pacífica e focada pode continuar a ser repetida, com mais ou menos efeitos.

Os 18 dias deixam o pensamento ir longe e arriscar que talvez da população precise vir a exigência para a criação de um Estado palestino. Se por meio de acordo não sai – e não foram poucas as tentativas – talvez possam fazer pressão, juntas, as vozes somadas do padeiro de Ramallah, do confeiteiro de Belém, do sujeito que, sem opção, deixa sua casa em Gaza ser usada para ocultar túneis de contrabando.

A história e as histórias têm mostrado que os extremistas não costumam mudar. Para que seja possível dar um próximo passo, qualquer próximo passo na direção correta, algo precisa mudar radicalmente por aqui.

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