Estou em Paris esperando a conexão para Tel Aviv. “Para casa”, eu deveria dizer. Primeiros momentos sozinho em dois dias, fora as poucas horas de sono que eu consegui no avião para cá.

Ao meu lado havia, no voo, uma família – pai brasileiro, duas filhas, uma de cada casamento, a mãe argentina de uma delas. A outra, Natalie, de dez anos, quis conversar comigo durante boa parte da viagem. Estranhou o meu espanhol. Dei a ela uma moeda de um shekel e um papel com o nome dela em hebraico. Se eu tivesse ganhado coisa assim aos dez anos, teria adorado! Não sei se ela gostou tanto, mas eu quis dar uma espécie de prêmio pelo interesse precoce pelas geografias, pelos idiomas. Talvez tenha visto nela meu “eu” de 10, 12 anos, dizendo “um dia vou ser jornalista”.

Tenho algumas horas até o próximo avião. A frequência viajando me deixou preguiçosamente desinteressado em correr atrás do portão de embarque correto o mais rápido possível. Desta vez me deixei levar pela proposta indecente de um chocolate quente francês no meio do caminho, que se provou ruim – o chocolate, não o caminho. Enquanto eu buscava, sem sucesso, moedas de euro para pagar pela bebida (estranhamente o croissant não me provocou) apareceu moça loura, jeito de não ser francesa, mas falando um francês que pareceu bom para meu ouvido destreinado.

Ela se enrolou com o pedido, a bandeja e o carrinho com as mochilas dela. Ofereci ajuda e ela aceitou. Nada demais. Em inglês sugeri que escolhesse uma mesa e disse que a ajudaria com o carrinho pesado. Merci beaucoup e coisa e tal. Sou um paspalho. Quando o meu chocolat chaud ruim ficou pronto eu deveria ter me sentado com ela à mesa, puxado papo.

Talvez dissesse que a bebida me decepcionou. Nós poderíamos estar dando risadas ao descobrir semelhanças: ela tem um ex jornalista que morou em Israel. E ela adorou saber que eu estive na Polônia, de onde ela é, mas estuda na França. Ela chamaria a terra dela de “um país tão improvável para o turismo” e eu responderia que infelizmente sim, e riríamos.

Mas não me sentei com ela à mesa. Escolhi a mesa em frente e me sentei de frente pra ela, o que só serviu para deixá-la constrangida com os farelos do croissant nos cantos da boca de lábios finos, que receberam retoques de maquiagem logo antes de ela se levantar e ir embora. (Do meu Moleskine)

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