Arik Sharon de plástico (foto: REUTERS/Nir Elias)Existem prazeres únicos. Para mim, um deles é escrever textos autorais, nos quais eu posso ser criativo com liberdade para me expressar e contar o que eu vejo. Acho que quando eu comecei a sonhar em ser jornalista, aos 12 anos, tinha dentro de mim esse desejo de relatar o que eu vejo de uma forma que, até hoje, só sei fazer escrevendo.

Poucas vezes, contudo, tenho a chance de escrever textos autorais. Muito porque eles são cada vez mais raros (e mais caros, é verdade) na imprensa brasileira. Mas já tive a chance de escrever textos assim para alguns veículos, como o caderno Aliás do jornal O Estado de S.Paulo, e algumas revistas.

No final de outubro recebi email da editora do Aliás, que conhece o meu texto e sabe da delícia que eu sinto quando escrevo para o caderno. Ela propunha uma ideia: escrever sobre o artista que fez um ‘boneco’ hiperrealista do Ariel Sharon no hospital. Palavras dela, essas.

Topei a missão, claro. Não a perderia por nada. E fui a campo conversar com o sujeito, um artista israelense polêmico, muito desconhecido em Israel, e com trabalhos expostos na Europa, onde ele vive há algumas décadas. Não foi difícil achar a galeria e o sujeito. Em alguns setores as assessorias de imprensa em Israel são eficientes.

Marquei a entrevista numa sexta-feira preguiçosa de manhã, dia seguinte à abertura da exposição ao público. Cheguei cedo à galeria. Noam, o artista, estava grudado à obra, como um médico cuidando do paciente. Ao me encontrar – a assessora já tinha dito que sou do Brasil e queria fazer um perfil dele – arriscou umas palavras em português, mas quis dar entrevista em hebraico.

Além de escolher o idioma, ele escolheu o local: com os pés afundados na areia da praia, para onde fomos caminhando, três quadras e meia, e conversando sobre os seis meses que ele passou no Brasil no meio da década de 1980. Histórias de um mochileiro como tantos mochileiros recheadas de aventuras em um Brasil diferente do Brasil que conhecemos hoje.

A conversa, molhada a raspadinhas de limão no calor que não queria ir embora, foi longa. Mas descontraída, informal. Por muitas vezes Noam, com as marcas do cansaço estampados no rosto, entregou o jogo e confessou seu lado egocêntrico de artista. Sem modéstia. Sem disfarce.

O texto ficou pronto bem antes de ser publicado, mas a editora resolveu fazer dele contra-capa, posição de destaque que deu mais orgulho à delícia de escrever no Aliás. Mas o texto precisava crescer. No meio tempo, o Sharon de verdade, não o de plástico, foi levado para 48 horas em casa. Contei a história, e emendei com o relato da conversa com o artista.

Deu no que deu: Ninguém vê o premiê, publicado no dia 20 de novembro, domingo. A versão impressa é mais bonita, mas quem quiser ler na internet pode encontrar o texto acessando o site do Estadão.

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