Panorama de Jericó (foto: Wikipedia)

Jericó (na foto) é uma cidade palestina com população de cerca de 20 mil pessoas, localizada ao norte do Mar Morto, próxima do Rio Jordão. É uma das cidades mais antigas do mundo, com presença contínua de habitantes há mais de 10 mil anos. Colocando de lado o conflito sem fim entre palestinos – que desde 1994 dominam inteiramente a cidade – e israelenses, Jericó tem importância histórica óbvia. Além disso, tem relevância religiosa para muçulmanos, cristãos e judeus.

Pois uma entidade israelense que presta serviços a jornalistas estrangeiros trabalhando em Israel organizou uma visita à cidade. O passeio, de um dia inteiro, deveria ocorrer ontem, e incluiria conversas com autoridades locais sobre os eventos que estão sendo organizados para a comemoração dos 10 mil anos da cidade – Israel é assim: Tel Aviv comemorou 100 anos em 2009, Jericó faz 10 mil este ano!

Além do encontro com políticos municipais e da Autoridade Palestina (AP), haveria uma visita às excavações arqueológicas do palácio de Hisham.

Ontem, a entidade enviou um email para os jornalistas estrangeiros para anunciar que a visita tinha sido cancelada pela AP. Na mensagem aparece a explicação de que um porta-voz da AP, Ghassan Khatib, teria dito à entidade que “jornalistas que venham por meio de uma organização israelense não são bem-vindos”. Isso apesar de que o passeio tinha sido organizado em coordenação com o Ministério do Turismo da AP.

Em resposta, o diretor da entidade, Aryeh Green, enviou a seguinte mensagem à AP:

Em quatro anos de prestação de serviços profissionais para a imprensa estrangeira baseada ou em visita a Israel ou à Autoridade Palestina, estou preocupado e chocado com uma política tão excludente e divisora de um representante da AP. Espero muito que este não seja um passo novo e preocupante no endurecimento de uma posição palestina anti-Israel, nem um reflexo das restrições de liberdade de imprensa nas áreas palestinas.

Até onde eu soube, não houve resposta da AP a respeito. Mas esta não é a primeira vez que o Ministério palestino do Turismo se posicionou dessa forma com relação a Israel. Na semana passada o Ministério israelense do Turismo fez um convite aos 33 mineiros resgatados no Chile para que passassem o Natal na Terra Santa – o que incluiria visitas a locais sagrados para o cristianismo, alguns deles em território palestino, como a Igreja da Natividade, em Belém.

A notícia foi amplamente divulgada, no contexto dos presentes e convites que os mineiros, então recém-resgatados em Copiapó, estavam recebendo. Na sequência, o Terra deu uma notícia da EFE segundo a qual “palestinos pedem que mineiros rejeitem convite israelense”. Para o porta-voz do Departamento de Negociações da OLP, Xavier Abu Eid, o convite aos mineradores “reflete o uso político que Israel faz do turismo”.

Este afastamento em uma das áreas tradicionais de cooperação (apesar do conflito) entre palestinos e israelenses, é preocupante. Os dois lados têm interesse comum em aumentar o ingresso de turistas na região, que sofreu muito durante as intifadas e mesmo durante guerras curtas e concentradas em áreas específicas, como o norte de Israel e Faixa de Gaza.

Em épocas de calmaria o turismo é uma das principais atividades e fontes de renda tanto para israelenses como para palestinos – por conta da importância religiosa e histórica existente por aqui. Sigo acompanhando a questão, com a mesma preocupação que Green manifestou, e com a esperança de que esses casos sejam pontuais, apenas.

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