A seguir, um “Oriente Médio 101. São alguns fatos bem básicos sobre o Oriente Médio e os povos da região que você precisa saber (se é que já não sabe!) quando for conversar com alguém sobre o assunto. Há muito mais informações que podem entrar aqui. Se tiver sugestões, envie pelos comentários e eu avalio para acrescentar.

[Nota: este post está agora no Medium, onde vem sendo ampliado. Acesse lá também!]

“Só podemos discutir aquilo que ninguém sabe” — Richard Feynman

Árabes e muçulmanos
Cada um com seu cada um. Árabes são parte de um grupo étnico, não de uma religião. Os árabes existem desde bem antes do Islã (a religião) e existem árabes cristãos e árabes judeus (sim!) Portanto, nem todos os árabes são muçulmanos. Há populações numerosas de árabes cristãos em todo o mundo, incluindo países como Líbano, Israel, Síria e Jordânia, por exemplo. E nem todos os muçulmanos são árabes – na realidade, dois terços da população muçulmana mundial não são árabes. Em comum os árabes têm o idioma árabe. E a origem geográfica na Península Arábica.

Israelenses e judeus
Igualmente, israelenses e judeus não são necessariamente a mesma coisa. Há judeus israelenses e israelenses judeus, mas há também judeus de outros países, como judeus brasileiros, judeus marroquinos, judeus turcos, judeus chineses; e israelenses de outras religiões, como muçulmanos, cristãos etc. E há toda uma discussão sobre quem são os judeus. O termo “israelita” (que apenas em Portugal é o correspondente do nosso “israelense”) se refere aos judeus, mas não pode ser confundido com “israelense”. E já que eu mencionei Portugal, por lá os palestinos são chamados de “palestinianos”. Judeus também podem ser árabes, como explicado acima.

Muçulmanos e o Islã
O Islã é uma religião. O termo significa “rendição” ou “submissão” em árabe e faz referência à obrigação religiosa do muçulmano (o sujeito que segue a religião) de acolher a vontade de Deus. Outra palavra, “salam” (“paz”, também em árabe) está relacionada ao nome da religião, o que corrobora a noção de que a fé islâmica tem caráter pacífico e tolerante. O Islã pode também ser chamado de islamismo, embora esse conceito se refira mais ao Islã político. Dessa maneira, embora existam controvérsias, “islâmico” se refere ao que é da religião e “islamista”, ao Islã político. Para o historiador Daniel Pipes, é um erro ver todo o Islã como islamismo. “O islamismo é uma tendência dentro do Islã, no momento muito intensa”.

Judeus e o judaísmo
Na mesma lógica, judaísmo é a religião (judaica, dã) e judeus são os que seguem tal religião. Em português há uma confusão com os adjetivos “judeu”, “judia”, “judaico”, “judaica”. Explico: judeus e judias são os homens e as mulheres que seguem o judaísmo. “Judaico” refere-se aos judeus. Assim, um sujeito é judeu, mas a escola onde o filho dele estuda é judaica, não judia. A imprensa que o avô dele lê, com as notícias de casamentos e barmitzvás, é judaica, não judia. A propósito, “judiar” e “judiação” são termos pejorativos, como “denegrir” ou “programa de índio”. Use, em vez desses, “maltratar”, “maus-tratos”. Se quiser, é claro. Na famosa canção “Asa Branca” há o verso “Eu perguntei a Deus do céu por que tamanha judiação“.

Semitismo e antissemitismo
É uma contradição estranha a afirmativa de que árabes são antissemitas. Os árabes, assim como os judeus, são semitas. Aliás, os etíopes também. A palavra tem origem no nome de Sem (“Shem”, em hebraico, daí o termo “antishemiut” para “antissemitismo). Sem era filho de Noé (aquele da Arca, lembra?) Assim como há povos semitas, há idiomas semitas – e entram na longa lista o hebraico, o árabe e o idioma dos etíopes (atenção: é amárico, não confundir com aramaico, origem do hebraico, e também um idioma semita).

Xiitas e sunitas
Diferente do que se acredita, a divisão entre sunitas e xiitas é muito mais política e jurídica do que teológica. E as correntes não são as únicas dentro do Islã – há, na realidade, várias centenas delas. Li que muçulmanos xiitas se equivalem a católicos romanos no cristianismo: têm uma presença clerical marcante, os imãs (viu que diferença enorme faz um acento?!) que exigem a observância religiosa. Muçulmanos sunitas seriam como protestantes: os imãs não têm um papel tão central e eles preferem uma linha mais direta com Deus.

Iranianos não são árabes
O povo do Irã, país no Golfo Pérsico, conhecidos como iranianos (dã) ou persas, não é árabe. Eles não falam árabe. Falam persa, idioma que é grafado no mesmo alfabeto do árabe. Turcos, por sinal, tampouco são árabes (e falam o idioma turco, que no passado era grafado, como o persa, com caracteres do alfabeto árabe). No Brasil existe uma confusão imensa quando se fala sobre imigrantes do Oriente Médio: não importa de onde vêm, são chamados de “turcos” – a razão disso pode estar no fato de que as primeiras ondas de imigração ocorreram durante a vigência do Império Turco-Otomano.

Jihad e intifada
É um erro traduzir o termo árabe jihad como “guerra santa”. O significado original da palavra é “esforço”, ou “esforço sobre si”. Contudo, as crises políticas das últimas décadas, aliadas ao extremismo islâmico ou islamista (que, atenção: é exceção, não regra), ajudaram a que passássemos a entender que jihad é sinônimo de guerra santa. Apesar disso, é correto afirmar que a guerra santa é uma forma de jihad. Embora esteja bastante associada à ideia de guerra santa, conflito armado etc, intifada é um “levante”, e pode ser também pacífico. As revoltas da Primavera Árabe são um excelente exemplo de levante pacífico. Que funcionam em alguns casos, como no Egito, não funcionam em outros, como na Síria, e viram violentas em outros, como na Líbia.

O lenço não é ‘palestino’
Você já deve ter visto (se é que já não usou) os lenços “palestinos”. Uso as aspas porque a keffiyeh é erroneamente usada como símbolo palestino. O pano fino, com estampa xadrez de diferentes cores, é algo muito mais étnico (e geográfico, por causa das duras tempestades de areia nos desertos do Oriente Médio) do que nacional. Uma pena que as pessoas associem o lenço a uma luta nacional – tanto aqueles que o usam como símbolo, de forma a provocar ou a tentar atrair olhares, como aqueles que condenam seu uso, como já vi muitas vezes (com o argumento imbecil de que “um terrorista suicida, quando se explode, usa keffieh“). Não se engane: às vezes, uma keffyieh é apenas uma keffyieh!

Última atualização: 20/5/2013 (foto: Joyce N. Boghosian/White House/BagNews)

Colaboração: Leslie Sasson Cohen e Solly Boussidan (colabore também, enviando sugestões de temas ou de abordagens; use o formulário a seguir ou os comentários, que poderão ser publicados)

(Do original Fatos, no meu Expresso Oriente, de Gabriel Toueg)

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