Estou sentado na frente da televisão. A televisão, desligada, reflete as luzes dos carros e das janelas vizinhas. Os poucos sons que ainda escuto, na madrugada, vêm dos pneus lambendo com pressa o asfalto. Mas em espasmos freqüentes o quase silêncio é cortado por tosse. Minha tosse. A tosse é tão forte que chega a me contorcer. As costas, desacostumadas, reclamam de dor. Tomo dois comprimidos de Dorflex. Psicologicamente tento me acalmar, mas a dor não passa. A televisão ainda está desligada e as luzes fazem seu show distraído na tela quase plana. Mais um acesso de tosse. Lembro de uma pomada descongestionante francesa. Não estou congestionado, mas a pomada alivia a sensação de dor pela tosse. Passo a pomada no peito e nas costas, altura do pulmão. O esforço para esfregar as “asas” resgata a dor. Lembro que estou com fome. Reúno minhas forças para apanhar o controle remoto e desligar… Ah! A televisão já está desligada. Levanto, nada na geladeira. Pego chaves, carteira, celular. Desço feito velho as escadas do prédio. Quatro andares de tosse ecoada pelos corredores estreitos. Alcanço o carro, sento e acomodo os ossos que ainda reclamam. Dou a partida e resolvo passear. Entro sobre rodas na cidade de dois mil anos. Devagar, cabeça encostada no vidro, olhar no alto da muralha. Dou a volta, vejo o Muro. Saio. Na volta, encontro um supermercado aberto. Compro meia dúzia de coisas sem paciência para saber o que estou levando. Entro de novo no carro e em cinco minutos chego em casa. Arrasto os ossos pelas escadas, ainda tossindo. Largo as compras no sofá e sento de novo, na frente da televisão.

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